quinta-feira, 5 de abril de 2012

Perfil do Extensionista rural

Na última metade de século a Extensão Rural está passando por importantes transformações, apontando criticas ao modelo tecnicista e produtivista e uma tendência para um novo perfil de extensionistas. Entre muitos analistas, citamos Paulo Freire (década de 70) e Caporal e Costabeber (década de 2000) que influenciaram de certa maneira a chamada “Nova Extensão Rural”. Paulo Freire, por exemplo, afirma que: “Não lhe cabe portanto (ao engenheiro agrônomo extensionista), de uma perspectiva realmente humanista, estender suas técnicas, entregá-las, prescrevê-las; não lhe cabe persuadir nem fazer dos camponeses o papel em branco para sua propaganda. Como educador, se recusa a ‘domesticação’ dos homens, sua tarefa corresponde ao conceito de comunicação, não ao de extensão”. 


Para superar a visão do saber tradicional orientado para um modelo de modernização altamente criticado na última metade de século e da imposição dos técnicos perante os agricultores, Freire lança a seguinte afirmação na relação entre os extensionistas e as famílias agricultoras: “Ao contrário, educar e educar-se, na prática da liberdade, é tarefa daqueles que sabem que pouco sabem – por isto sabem que sabem algo e podem assim chegar a saber mais – em diálogo com aqueles que, quase sempre, pensam que nada sabem, para que estes, transformando seu pensar que nada sabem em saber que pouco sabem, possam igualmente saber mais” (Freire, 2002). 

Nessa orientação, Caporal e Costabeber (2007) designam que a Extensão Rural deve ter uma perspectiva voltada para a Agroecologia (entendida como ciência e um modo de vida, portanto, não, somente, como produção agroecológica). Miguel Altieri, importante analista sobre agroecologia e agricultura sustentável, trabalha com pesquisas voltadas para manejos sustentáveis aliando princípios de manejo integrado de pragas, controle biológico e outras práticas sustentáveis. Outro importante analista que influenciou indiretamente nas orientações da Extensão Rural Brasileira. Diversos pesquisadores, extensionistas e agentes de desenvolvimento conduziram para a elaboração e construção da Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural em 2003. Em 2010, com algumas modificações transformou-se em Lei nº 12.188, de 11 de janeiro, conferindo ao Art. 1º a Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural para a Agricultura Familiar e Reforma Agrária - PNATER, cuja formulação e supervisão são de competência do Ministério do Desenvolvimento Agrário - MDA. 


Em 2009, Gerhardt publica um ensaio crítico em relação às publicações que embasaram tanto a formatação como o conteúdo da PNATER e o “paradigma agroecológico” como orientação básica. Em 2011, um dos propositores da PNATER, Francisco Roberto Caporal, lança um artigo no VII Congresso Brasileiro de Agroecologia que, posteriormente, é publicado na Revista de Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável criticando que a Lei de Ater não é mais a mesma, tratando da exclusão da Agroecologia e outras armadilhas. 

Nesse emaranhado de questões que translocam à uma transformação no agir dos técnicos e nas ações das entidades que sustentam a Extensão Rural, e que orientam para uma prática pedagógica, sugerindo ao extensionistas respeitar o próximo, aproximar-se pelo diálogo, comunicar-se e buscar um modo dialético de pensar a realidade. A política de extensão rural objetiva conduzir esse potencial transformador no sentido de avançar no rural. 


Diante desse cenário, Souza (2011) pesquisou os extensionistas rurais do setor público de Santa Catarina procurando compreender o processo de identificação e construção da identidade profissional sob sua ótica e a influência das organizações públicas de extensão rural neste contexto. Os resultados apontam a definição de três perfis extensionistas: a) orientados à empresa, b) autofocados e c) orientados por um ideal. Assim, conclui Souza (2011, p. 123-124): 

Perfil 01 – Extensionistas orientados à empresa: consideram o trabalho um meio de vida, em que estar tranquilo e confortável em seu ambiente de trabalho e com o trabalho lhes é praticamente suficiente. Acreditamos que por sua maturidade, não esperam do trabalho mais do que ele pode proporcionar, assim associaram as ambições de forma realística com as possibilidades que a empresa oferece. 

Perfil 02 – Extensionistas autofocados: tem o trabalho como um mecanismo de distinção pessoal, o que os impulsiona diuturnamente na busca pela excelência e autonomia profissional. 

Perfil 03 – Extensionistas idealistas: têm o trabalho como o sentido de suas vidas, necessitam estar ativamente engajados no que estão fazendo, buscam indefectivelmente em seu trabalho propósito e autonomia. 

Nessa perspectiva a dissertação de mestrado elaborada e defendida no Programa de Programa de Pós-Graduação em Extensão Rural da Universidade Federal de Santa Maria traz importantes elementos para a análise do perfil do extensionistas com a prática social da extensão rural. Para mais informações, baixe a dissertação completa clicando aqui


** Mais informações: 

A autora Leliani Valéria de Souza, mestre em Extensão Rural pelo Programa de Pós-Graduação em Extensão Rural, é entrevistada no Programa de Rádio Panorama Agrícola 21/fev/2012. Souza fala sobre o perfil do extensionista rural em Santa Catarina tomando por base a dissertação de mestrado defendida em 2011, com orientação da Profª. Drª. Vivien Diesel – “Lógicas vivenciais da identidade extensionistas em uma organização pública de Extensão Rural”. Para escutar a entrevista clique aqui


Referências Bibliográficas 

CAPORAL, F. R. . Lei de Ater: exclusão da Agroecologia e outras armadilhas. Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável, Porto Alegre, p. 5 - 54, 01 nov. 2011. 

CAPORAL, Francisco Roberto; COSTABEBER, José Antônio. Agroecologia e Extensão Rural: contribuições para a promoção do desenvolvimento rural sustentável. Brasília: MDA/SAF/DATER/-2007. 

FREIRE, Paulo. Extensão ou comunicação? Tradução de Rosisca Darcy de Oliveira. 12 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002. 

GERHARDT, C. Circularidade discursiva, reificação e os riscos da retórica messiânica da “transição agroecológica” nos discursos da “Nova Extensão Rural. Anais... 27º Congresso Latinoamericano de Sociologia (ALAS). Anais... Buenos Aires/Argentina. ALAS, 2009.

SOUZA, L.V. Lógicas vivenciais da identidade extensionista em uma organização pública de extensão rural. Dissertação de Mestrado (Dissertação de Mestrado). Santa Maria: PPGExR/UFSM, 2011.

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