domingo, 30 de agosto de 2015

Arroio do Tigre: um único semáforo, todos os caminhos.

Escrito por: 
Mauro Barcellos Sopeña
Doutorando em Extensão Rural – PPGExR/UFSM 
maurosopena@gmail.com


Amigo Ezequiel,

Gostaria de expressar aqui minha alegria e satisfação de ter vivenciado ricas experiências junto aos produtores e entidades envolvidas com a produção de tabaco no Município de Arroio do Tigre. A receptividade de teus concidadãos foi incrível e muito valiosa para mim. Para além dos dados que colhi em minha pesquisa, ficará na minha lembrança o valor dessa gente. Meu obrigado aos produtores Irici, Alceu, Leonilda, Gustavo, Marnazé, Redin, Claudia, Carlinhos e Maurício. Agradeço igualmente aos representantes do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, da JTI Processadora de Tabacos do Brasil, da Tabacos Centro Cerra Ltda, da Afubra, da Ajurati e da Cooperfumos.

Minha visita foi no período de plantio do tabaco. Muitas piscinas, bandejas, mudas. Burley? Virgínia? Quantos mil pés? O número de mudas está na ponta da língua, a esperança persiste. A produção inserida em lindas paisagens; a receptividade dos agricultores; o zelo em cada pousada dando boas-vindas a toda gente. Estes foram sinais marcantes para mim. O árduo trabalho mescla-se ao cenário. A incerteza permeia. Sobre o tabaco? Classificação, preço, estufa, veneno, estimativa, orientador, instrutor! Todos os depoimentos são formados por algumas destas palavras. Quando novembro chegar, a comercialização finalizará a angústia. 

A compreensão da realidade depende muito desta vivência; felizmente pude experimentá-la em diferentes varandas, palcos suntuosos da realidade. Agradeço-te muito por teres me ajudado nesta importante etapa de minha pesquisa. 

Um abraço verdadeiro, meu amigo!

Mauro.
(http://maurosopena.blogspot.com.br/)



domingo, 23 de agosto de 2015

Filho de agricultor familiar também virou doutor!

ISTO NÃO É PUBLICIDADE, ISTO É REALIDADE!

TESE DE DOUTORADO EM EXTENSÃO RURAL
Autor: Ezequiel Redin
Título: Família rural e produção de tabaco: estratégias de reprodução social em Arroio do Tigre/RS
CURSO: Programa de Pós-Graduação em Extensão Rural (PPGExR) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).


Para visualizar essa foto no Facebook, clique aqui.

Ezequiel Redin é filho de agricultor familiar da localidade de Linha Paleta, interior de Arroio do Tigre, Rio Grande do Sul.  Em agosto de 2015, tornou-se doutor em Extensão Rural pela Universidade Federal de Santa Maria. Com a tese intitulada: “Família rural e produção de tabaco: estratégias de reprodução social em Arroio do Tigre/RS”, o trabalho aborda a reprodução social das famílias fumicultoras com base na perspectiva cronológica e na abordagem sócio-histórica, e aponta diferentes estratégias e fases do desenvolvimento no meio rural fumageiro.

A banca examinadora foi composta pelos professores Joel Orlando Bevilaqua Marin (Orientador), Everton Lazzaretti Picolotto (PPCS/UFSM), João Carlos Tedesco (UPF), Marco Antônio Verardi Fialho (PPGExR/UFSM), e Virginia Elisabeta Etges (UNISC).

Aqui reproduzo parecer da tese de um membro avaliador da tese: 

"Considero o trabalho bem feito, inclusive expressivo de louvor; demonstra grande conhecimento do tema, capacidade narrativa e de escrita; revelou uma totalidade dinâmica e que se reproduz pela esfera das estratégias e racionalidades dos sujeitos envolvidos. Sugiro que a publique na forma de livro, sintetizando-o em alguns aspectos".

Breve sinopse:
O objetivo geral da tese foi compreender a reprodução social das famílias fumicultoras, os sentidos e as experiências vivenciadas diante dos diferentes momentos do desenvolvimento rural no município de Arroio do Tigre/RS. O marco teórico centrou-se nos conceitos da teoria de Pierre Bourdieu sobre as estratégias de reprodução social e habitus, em especial. Com base na bibliografia sobre a colonização, família rural, reprodução social na fumicultura, tratou-se de descrever e analisar as mudanças no espaço rural e as dificuldades das famílias na unidade de produção, atentando para aspectos subjetivos da relação familiar, do sistema de integração, do agricultor diante da ampliação dos espaços de sociabilidade e do mercado, e as alterações nas formas de produção e reprodução no meio rural. Com base na perspectiva cronológica e na abordagem sócio-histórica, o trabalho revela diferentes estratégias e fases do desenvolvimento no meio rural fumageiro.

sábado, 15 de agosto de 2015

XVII Jornada de Trabalho para Juventude Rural


Neste sábado, 15/08, a Associação da Juventude Rural de Arroio do Tigre (AJURATI) promoveu a “XVII Jornada de trabalho para Juventude Rural”, na Comunidade Evangélica – Arroio do Tigre (RS). O encontro teve como objetivo promover o debate e o diálogo sobre o trabalho infantil nas propriedades rurais e a importância da sucessão familiar, visando o desenvolvimento das propriedades como um todo. 

No primeiro momento foi composta a mesa de abertura com as autoridades presentes. Carlos da Silva, Presidente da AJURATI, destacou a importância do evento para a juventude rural e enfatizou a presença dos jovens rurais. 


Depois de realizados os pronunciamentos do Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, do Secretário do Planejamento, Comércio, Indústria e Turismo e do Prefeito Municipal, foi realizada a palestra sobre o trabalho infantil dirigida por Flávio Goulart. Sua exposição iniciou com a realidade da produção de tabaco da Malawi na África do Sul, da Zâmbia e da Turquia. Na Turquia não se produz tabaco tipo Burley e tipo Virginia, porém, se produz um fumo aromático, neste local. 

Flávio destacou as diferenças na produção de tabaco na África do Sul, em especial, ao melhoramento genético, a produtividade e também aos modos de vida da sociedade africana. Por outro lado, nos Estados Unidos, entre as regiões do nordeste e sudeste, apresenta uma condição diferenciada da África e do Brasil. A mão de obra na cultura do tabaco é de imigrantes, mexicanos e centro-americanos. Um pequeno produtor tem de 40 a 45 hectares. Pelas condições de relevo usam maquinários para a produção de fumo. Se na África a produção de tabaco é muito artesanal, nos Estados Unidos ela está altamente tecnificada. Nos Estados Unidos, a aplicação de agroquímicos é realizado com o trator e também existe um indutor de maturação para uniformizar a colheita do fumo. 

Na segunda parte da palestra, Goulart destacou a importância dos programas sociais, em especial, respeitando a cultura e modos de vida das comunidades rurais. Além disso, se tratou sobre a questão das drogas no meio rural que tem provocado problemas sociais pertinentes no âmbito da família e da sociedade. 


Após a palestra, Luisa Siqueira convidou os jovens rurais para a inscrição de uma nova turma de “Técnicas Agrícolas e Gestão” que iniciará na metade de Setembro. Em seguida, Eduardo Jardim Alves fez uma breve interlocução sobre o valor dos jovens rurais e motivou-os enfrentar os desafios da vida. 

Após almoço na comunidade evangélica, durante a parte da tarde, José Francisco Teloken, palestrou sobre a história do trabalho com a juventude rural em Arroio do Tigre. Nesse espaço, José Francisco comentou para os jovens sobre a trajetória da constituição dos grupos de juventude rural e a constituição da Associação da Juventude Rural de Arroio do Tigre (AJURATI). 



Na sequência foram realizadas gincanas e, após, o sorteio de prêmios para os jovens rurais presentes. Nesta atividade, participaram cinco representantes de cada um dos dezoito grupos de jovens rurais. Com essa atividade, a AJURATI objetiva engajar e incentivar a juventude rural do município de Arroio do Tigre e região, com intuito de fortalecer as estratégias de reprodução social na agricultura familiar em questão.


sábado, 8 de agosto de 2015

Dia dos Pais



Romar Beling, escritor e colunista do Jornal Gazeta da Serra, registrou no espaço “Leituras de Mundo” nesta sexta (07/08) que:

“Há Pais que só deixam para seus filhos dinheiro e patrimônio. E outros que optam por deixar seu exemplo. E exemplo não se compra. Exemplo se dá.”

Então, nessa data especial que se aproxima, mando um abraço apertado a Emildo Redin, meu pai, agricultor familiar. E foi justamente o exemplo que herdei dele – me ensinou a trabalhar, me ensinou a honestidade, me ensinou a perseverança e me ensinou, principalmente, a persistência. Então, é dia de registrar também minha admiração, pois foi através das suas mãos calejadas, sua determinação para o trabalho na roça, sua forma de compreensão do mundo que me ajudaram a buscar ou correr atrás dos meus sonhos. É com muito orgulho que vejo em ti, essa baita pessoa trabalhadora que vive na e da lida na terra, e produz o alimento que está na mesa diária de todos os brasileiros.

Pai! Eu te agradeço pela lida na terra, mas também agradeço em nome de muitas pessoas que vivem do alimento que você produz. Porém, só nós sabemos o quanto fomos estigmatizados num rural passado, mas estigma não nos abala, somente, fortalece nossas raízes e nossos ideais.

Então, obrigado Pai, pela lida na terra, por carpir o mato e lançar a semente que frutifica na terra. Tudo isto abaixo de muito sol quente e muito suor deslizando no rosto. Não foi fácil, mas estamos seguindo a luta, porque nosso lema não nos permite desistir, enquanto há luta, há esperança. Você é motivo de inspiração e devo-te a teu trabalho e ao trabalho da mãe, a conquista de meus sonhos (que são nossos sonhos).

Obrigado por continuar no campo firme e forte, apesar das imensas dificuldades de reprodução social e econômica no rural brasileiro. Você é um, entre milhares de agricultores que movem a sociedade brasileira. Disciplina, dedicação, educação e persistência são virtudes que eu adotei de você. Feliz dia dos pais.

De teu filho que te admira muito. Ezequiel Redin

domingo, 19 de julho de 2015

A balada ‪‬ou em busca da balada perfeita


Por ─ €zeqµiel ®edin 

Atualmente, a balada refere-se a um espaço para o encontro de pessoas, um local propício de festejos que possuem algumas características comuns: música, bebida, dança e muita ostentação (tanto física quanto econômica). Neste espaço, a sociedade reproduz as relações sociais imbricada nos seus comportamentos, nas suas formas de ostentação e suas identidades sociais. 

No centro da pista, com poucas luzes, dançam diversos casais – namorados, solteiros, casados, conhecidos e amigos, ao som dos “hits do momento”. A pista de dança representa a distinção entre aqueles que sabem dançar, aqueles que simplesmente dançam e uma ruptura com aqueles que não sabem dançar ou não se aventuram a tal. Outro espaço de distinção é o camarote, pois representa o poder econômico, o privilégio, o apartheid social. São espaços cobiçados, porém, de pouca sintonia. Um lugar a parte, em que você separa, através de uma medida econômica, as pessoas; é o local de condições privilegiadas como o próprio espaço, as bebidas e o atendimento personalizado na balada. 

Parados ao redor da pista, bebendo cerveja, refrigerante ou água (o que importa é consumir algo), homens e mulheres formam grupos, observam as danças e também agitam o corpo; das mais variadas idades, circulam o salão de forma a procurar um par para companhia à noite ou, talvez, alguma troca de carinhos. Impulsionados pela tentação humana alguns disparam olhares como metralhadoras, outros jogam chavões e chamam para a dança. Cenas que parecem surreais na realidade, mas usam essas estratégias para ampliar as possibilidades de conquistar alguém para se relacionar momentaneamente.

A música não agrada a todos, mas todos disfarçam ser agradados pelo ambiente – uma contradição inversamente proporcional. Neste recinto, as pessoas demonstram suas habilidades físicas e corporais num teatro legitimamente vago e ocasional. Nessa dramaturgia, as encenações são formas de sobressaliência, em que se dividem as pessoas legais e bacanas das pessoas chatas e mal-humoradas. Quem dança, quem está alegre e quem toma bebida é bem recebido, por outro lado, quem não dança, não bebe e não interage é malvisto, não se adequa àquele espaço social. O ato de dançar, talvez, seja a maior forma de inclusão/exclusão de oportunidades numa balada. Dançar bem, seja de forma individual ou com um par é, sem dúvida, um recurso privilegiado nesse meio. 

A balada também é um espaço eclético de pessoas, quanto maior o grau de diversidade, melhor a balada. Porém, nem sempre isso é uma verdade. O estilo musical, a estrutura física, o valor do ingresso são elementos de seletividade – portanto, o próprio espaço já seleciona previamente quem irá ocupá-lo. 

Neste local, tudo é psicológico. A balada boa é aquela balada cheia, com música, cerveja gelada e companhia de qualidade inquestionável. Mas, na verdade, tudo isso é questionável. A balada boa para você pode não ser a balada boa para o outro. Um salão enorme com 300 pessoas pode ser considerado uma balada fraca, com pouco público; ao contrário um salão pequeno com 300 pessoas, pode ser considerado uma balada cheia, enorme. Tudo o que se refere na balada é ambíguo e contraditório. As pessoas buscam um espaço público de distração, mas interagem, muitas vezes, apenas com o próprio grupo de amigos. É contraditório e, ao mesmo, tempo aceitável, pois reflete a essência do comportamento social.

A balada transmite a sensação de felicidade e alegria, mas é um espaço efusivo de tristeza e rejeição. A todo instante, ocorrem julgamentos da aparência, do comportamento, do traje que veste, do modo que dança, do corpo físico e das características estéticas. A negação da dança é a rejeição aos elementos visuais da pessoa ou, em outros casos, o não saber dançar. Neste espaço também não se pode esperar algo mais que o ajuizamento da aparência. Aliás, a foto, a bebida, a dança e outros aspectos são formas de exposição que subjetivamente forjam uma identidade inventada. Aliás, o rapaz que se veste de gaúcho numa balada confronta-se entre os elementos do tradicional e do contemporâneo e reforça sua distinção identitária. A moça que adere as roupas da moda forja a transmissão alusiva aos aspectos tributários à modernidade.

Neste local tudo é forjado: o sorriso, a simpatia, a alegria, a ostentação e também o tipo ideal baladeiro. O tipo ideal baladeiro é aquele que completa os requisitos essenciais – bebe, é divertido, dança, interage com as pessoas e toda festa fica com alguém. É o desejado, o suprassumo da balada. Na vida real, o baladeiro ideal nem sempre atinge seus objetivos, mas está ali, tentando, relacionando-se e disposto a enfrentar as diversidades desse ambiente. A balada, na verdade, é o refúgio das amarguras, o local que todos buscam para fugir dos problemas ou a possibilidade de começar um novo relacionamento. Ademais, o espaço é antagônico porque mistura, justamente, todas as imperfeições da natureza humana, até mesmo os valores que um dia julgou correto. O espaço não é um lugar de alegria permanente, porém, nem objetiva ser, mas é um recinto feroz que envolve a interação entre pessoas conhecidas e desconhecidas que almejam buscar ali um momento de distração casual diante das diversas ocasiões turbulentas que a vida nos oferece. 

Estamos a todo instante compartilhando momentos inusitados com a vida, momentos que são bons ou ruins, felizes ou tristes. O que realmente importa é viver de bem consigo mesmo, seja na balada, no bar ou mesmo em nenhum destes recintos – porque a vida é tão curta para guardar ressentimentos sobre o que fez ou deixou de fazer. Seja na balada ou em qualquer outro recinto, o que vale mesmo é viver com intensidade! 

Para baixar esse texto em formato PDF clique aqui!

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A carroça e o trator

Entre o passado e o presente, entre o antigo e o moderno! O boi foi substituído pelo trator, mas a carroça, no momento, ainda resiste o duelo contra o carretão – uma readaptação entre o tradicional e o contemporâneo no campo! Contudo, cabe ressaltar que a carroça ‘evoluiu’ –com as rodas de pneus – e continuou firme na disputa. E a pergunta que não quer calar: Até quando?


sábado, 11 de julho de 2015

► Vertentes 2

Foto: Ezequiel Redin

O lançamento do “Vertentes 2”, na noite desta sexta-feira (10), foi coroado com a presença massiva da sociedade nas dependências do Clube Comercial, em Sobradinho. Fiquei surpreso com o impacto desse evento na Região Centro Serra. Sem dúvida, cada autor tem uma contribuição muito particular sobre este fato. Era para ser um evento simples, sem regalo, porém, tornou-se um evento pomposo, brilhante, de grande envergadura. 

Aos amigos e familiares que receberam o convite, faço mea-culpa, pois não consegui dar atenção necessária para cada um; merecem muito zelo especial, porém a dinâmica não permitiu. Mesmo assim, quero dizer que me sinto muito grato pela presença de vocês neste momento. Além disso, muita gente ficou de fora, pois não tive tempo hábil de convidar pessoalmente cada um, além da nossa limitação na capacidade de lotação, restrições estruturais, mas ressalto que teremos outras oportunidades para isto. 

Gratidão por tudo!

A pedido, posto algumas fotos do evento!

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sexta-feira, 3 de julho de 2015

Reprodução – da transcrição à reinvenção


Por ─ €zeqµiel ®edin

Aplicamos tanto a ‘reprodução’ que não pensamos mais sobre como ela afeta nosso cotidiano. A todo o momento estamos reproduzindo algo (no sentido de replicar) – o sistema, a instituição (Estado ou família), o mercado, etc. Sempre temos um modelo para tudo. No ensino primário usamos o livro didático – e os professores são influenciados a empregá-lo como forma de manter um padrão educacional. Nos ofícios do dia a dia, estamos em boa parte do tempo empregando modelos para desenvolver atividades. Para iniciar algum trabalho quase sempre procuramos uma fórmula, uma receita ou algo de base que já foi aplicado anteriormente. Optamos por esta estratégia com vistas a minimizar o risco sobre determinado afazer não se tornar eficaz. Talvez, quando refletimos sobre reprodução ligamos diretamente a reprodução humana, cujos indivíduos constituem famílias, formando novas gerações. A proposta aqui é ir além dessa noção.  

Reprodução, a própria terminologia da palavra clama, em primeiro momento, por uso de maneiras já previamente consolidadas e que, em certa medida, fornecem segurança ao indivíduo. O minidicionário Luft (2000, p. 573) descreve que reprodução é: “1. Ato ou efeito de reproduzir (-se). 2. Cópia, quadro, gravura. 3. Cópia, imitação de obra de arte” . Focamos na definição número 1, e para isso é necessário nova consulta com o termo reproduzir. O mesmo autor definirá: “Produzir(-se) de novo. 2. Multiplicar(-se), perpetuar(-se) pela geração. 3. Repetir(-se); renovar(-se). 4. Imitar; copiar”. Nessas duas conceituações prévias, são citadas três vezes a noção de “cópia” e outras quatro vezes, sinônimos como imitar, quadro, gravura ou repetir.

Nessa acepção, a reprodução é concebida, geralmente, como um ato que envolve o uso de artifícios que, teoricamente, forneceram resultados agradáveis para garantir o futuro. Portanto, criar, imaginar, desvendar e readequar novas formas com a finalidade de perpetuação não estaria comtemplada nessa noção – quando se limita ao uso desses termos. No entanto, quando a conceituação ruma para produzir ou multiplicar, ela prevê que nesse tempo/espaço podem ocorrer reconfigurações, principalmente, quando tratamos da análise do meio social rural. Talvez, a ação, seguida de forma voraz pelos agricultores, está ligada diretamente ao conceito de reprodução como “cópia”, quando replicam os saberes do passado ou quando ‘reproduzem’ o pacote tecnológico tal qual prescreve o sistema de integração. O agricultor internalizou o sistema, tanto quanto cada cidadão vinculado ao padrão ocidental de desenvolvimento.

Atualmente, as unidades familiares ligadas diretamente à produção mercantil são campos de replicação de tecnologias, boas práticas de conservação do solo, de técnicas e procedimentos, misturados com rituais sagrados pela sabedoria popular, ou de evidências sociais em geral. Quando inovações externas são introduzidas, são vistas com receio, repulsa e, caso emergir um insucesso, é ligeiramente renegado socialmente pela comunidade rural; uma estratégia defensiva, de precaução em relação ao futuro da família. O trabalho, ligado diretamente a atividades do sistema de integração, configura-se uma espécie de transcrição literal de procedimentos e receituários agronômicos para um bom desenvolvimento fisiológico da cultura, ou seja, exigem-se das famílias rurais boa dose de disciplina e obediência, traduzidas na forma de capricho e organização na propriedade. Por isso, muitas vezes, o trabalho no rural é considerado repetitivo. Compreendemos a reprodução além da repetição, da cópia ou da transcrição de técnicas ou apuração de saberes tradicionais – são incorporados culturalmente, mas são readaptados e reconfigurados ao longo do tempo, seja por imposição externa ou pela necessidade da família rural.

A reprodução grifada como mecanismo de segurança social equivale também pensá-la como uma arte criativa, de reinvenção de formas de trabalho e sociabilidade, da maneira como é comercializado o produto do trabalho no mercado. Dito isto, a reprodução vista pelo processo de diferenciação é característica intrínseca para auferir autonomia pelos agentes sociais. Por fim, a reprodução não é uma ação vinculada estritamente ao futuro, mas uma ação realizada no presente com vistas à perpetuação da instituição família no ciclo curto e longo. 

sexta-feira, 12 de junho de 2015

A imagem do agricultor familiar

Foto: Agricultor Familiar de Arroio do Tigre, RS*

A imagem do agricultor familiar sempre é diretamente atrelada ao chapéu e a roça. As instituições representativas não conseguem superar o próprio antagonismo. Em vez de reforçar uma identidade positiva, reproduzem uma caricatura que auxilia na depreciação da figura das famílias rurais.

O agricultor que teve seu traquejo social, vestimentas questionadas e concepção de causa-efeito diretamente relacionada à baixa qualificação tem como representação oficial uma imagem vinculada às características que, ainda, denotam no psíquico da sociedade uma concepção de atraso.

Em tempos modernos, não se pode mais aceitar que o agricultor familiar ainda esteja associado a figura do chapéu, da roupa velha e rasgada ou da enxada. Ele próprio está dando indicativos que esta época ficou para trás.

A produção da identidade do agricultor familiar não necessariamente passa por ser representado pela infeliz personagem criada por Monteiro Lobato. O agricultor familiar contemporâneo também é o agricultor que se veste de terno, que é reconhecido por suas atribuições sociais mais relevantes, como a produção de alimentos à sociedade, mas também quer ser reconhecido na sua totalidade cidadã.  

O reconhecimento social da categoria da Agricultura Familiar passa também pela valorização da sua imagem perante a sociedade! E valorizar significa muito mais que caricaturá-lo, mas veiculá-lo as suas capacidades de reprodução e transformação social. Pense nisso! 

__________
* A foto comparativa é de um agricultor familiar do município de Arroio do Tigre, Rio Grande do Sul. A foto foi autorizada para divulgação, porém os direitos autorais estão diretamente ligados a esta notícia. Não reproduza esta imagem, sem a citação da fonte. 

sexta-feira, 29 de maio de 2015

VERTENTES 2 – obra da Academia Centro Serra de Letras será lançada em Julho de 2015


Nesta coletânea de escritores, especialmente vinculados por raízes étnicas e afetivas no Território Centro Serra do Estado do Rio Grande do Sul, faço uma contribuição com cinco versos (poesias e poemas), uma reunião de sílabas poéticas originado das memórias, vivências e experiências sociais no meio rural. Além disso, completa a minha participação com as cinco prosas (contos e crônicas), uma narração de momentos vividos, bem com a representação de personagens que vivenciaram o mundo rural do passado e vivenciam o presente, com um modo colonial característico de produzir e viver. 

O mais bacana disso tudo, é que essas alucinações poéticas, as reflexões, as memórias de um rural perto e, ao mesmo tempo, distante foi derivado de um projeto pessoal que ganhou contornos em fevereiro de 2010, em pleno segundo ano de mestrado. Nesse momento, resolvi criar um blog pessoal, inspirado num blogueiro que usa seu nome e sobrenome como marca pessoal, com o adjetivo “online”. A partir da constituição do “Blog do Ezequiel Redin Online” transitei das notícias, relatos, coberturas de eventos para as crônicas e reflexões críticas sobre a sociedade (tanto rural como urbana) e suas metamorfoses contemporâneas. Uma pequena parte disso, está incorporado no livro VERTENTES 2! 


É, concomitantemente, uma escrita mais leve, extraída do fundo do coração, de sentimentos que a vida nos promove. Delineados sobre uma única regra, tal seja: a regra de que escrever o que você está sentindo vale a pena! E tenho certeza: está valendo muito a pena!

A obra VERTENTES 2 é uma coletânea da Academia Centro Serra de Letras que conta com 276 páginas e a participação de 19 escritores. O livro está em fase de revisão final, para posterior impressão. O Vertentes 2 é prefaciado pelo jornalista e escritor Romar Beling, de Santa Cruz do Sul.



Lançamento:  
Data: 10 de julho de 2015. 
Horário: 19h 
Local: Clube Comercial de Sobradinho, RS.

As minhas contribuições estão assim intituladas: 

1 – Sol 
2 – Ali tem um rural
3 – Sentimento rural
4 – Menino da roça
5 – O rural
6 – Boca do monte
7 – A sojificação dos campos de futebol
8 – Trabalho ao som de música
9 – Em tempos alucinados
10 – Entre a caneta e o editor de texto...

Aguardem! Em julho de 2015, uma obra com o selo de qualidade da Academia Centro Serra de Letras



sábado, 23 de maio de 2015

Enquanto há vida, há esperança... a saga na UTI de um hospital



27 de março de 2015 foi um dia nebuloso: dia em que a mãe baixou o hospital em decorrência de um AVC hemorrágico.

Em Santa Maria, é inegável que as estruturas psicológicas se abalaram constantemente. A noite não foi mais a mesma, muito menos o sono. Sábado já em Arroio do Tigre, iniciou a jornada incansável em busca da recuperação da matriarca da família Redin. A tarde já estávamos em Cachoeira do Sul, na UTI do HCB. Mas esse espaço de tempo que é pouco, para nós, foi uma eternidade. E aí os dias passam, as horas passam e o contato com o hospital começa a ser rotineiro, frequente, angustiante, de altos e baixos, de muitas e poucas informações, de imprevisibilidades constantes. Na sala de espera da UTI, você conhece pessoas das mais variadas regiões, das mais variadas histórias de vida, um ambiente profícuo de consternação, de aflição, de ajuda mútua, de alegria e tristeza. Não há o que explique de forma tão exata os sentimentos que rondam pelas paredes claras de um hospital.

Qualquer barulho de um equipamento médico é angustiante, preocupante. A falta de informações é pior ainda. A agonia de conseguir apenas duas visitas durante o dia (de 30 min cada) é pior ainda. E aí você entra na UTI e aquele sorriso se abre e diz: “Oi, meu filho! Você veio!” É de rachar o coração. A mãe sempre foi uma pessoa muito positiva em relação a saúde, a vida, ao viver bem com amor e carinho. Mas, ela me surpreendeu, a cada visita, a cada comentário, a sua forma guerreira de vencer os desafios. Acho que herdei muito dela da forma como encaro a vida.

Ser guerreiro, pelear até o fim, com positividade, com força e com autoestima. Ela está me ensinando muito ainda. E o mais contrastante disso tudo: sabia de tudo o que está acontecendo e tinha forças pra seguir firme e forte. Cativou os(as) enfermeiras(os), o(s) médico(s), prometeu pão, cri-cri, e outras coisitas mais que é de sua especialidade na cozinha da agricultura familiar. Como não se motivar com isso? Como não seguir firme e forte vendo que a pessoa que tu mais ama, está ali passando por uma situação delicada e está superpositiva com a vida? É uma lição de vida. Ficamos reclamando de tudo e de todos e esquecemos de viver a nossa vida, do nosso jeito, da nossa forma alegre de viver, nos preocupando com detalhes de outros, de comportamentos alheios. A vida é tão curta pra tanta agonia.

E na sala de espera da UTI, você conhece pessoas, histórias, vidas. Aprende lições, ensina, abraça, conecta vibrações positivas, chora. Os sentimentos são fulminantes. Mas nem tudo são flores. Ao mesmo tempo em que uma pessoa lendo uma bíblia está dizendo que acredita em Jesus, que largou na mão de Deus, suspira, e no minuto seguinte diz que sua mãe morreu pra ela, pois ela se recusou a vir pro hospital cuidar do filho. Então, nesse espaço, também existe muita contradição. Orar para e pelo senhor, mas também transmitir um sentimento de desprezo por uma pessoa da família. Acho que assim, nem a bíblia os salvará!

Nesse espaço (Sala de Espera da UTI), tudo acontece. Você identifica problemas familiares, dos mais diversos. É uma magoa total, um sentimento nada bom. E aí você reflete sobre os diversos motivos que levam as pessoas a fazerem este desabafo. Você está num local em que os teus sentimentos estão confusos, acalorados, a flor da pele, de uma forma está também muito desprotegido, de outra está com vontade de expor isso às pessoas que estão por ali.

E aí, surgem as histórias. Surgem memórias sobre a pessoa internada, seus comportamentos, seus ideais e também seus pontos fracos, a juízo de valor da pessoa que lhe conta. Entre um apito sonoro, inúmeros telefonemas, e muita apreensão é que o enredo descortina-se.

Mas a pior das aflições, julgo eu, é a falta de informações corretas, certeiras sobre seu familiar internado. O que também julgo normal, pois afirmar algo sobre o comportamento/reação de um corpo humano que tem suas especificidades é de grande complexidade.

E os dias seguem...e as respostas também não urgem. Chega um momento que explode em você. A febre bate em seu corpo, a gripe faz questão de atrapalhar sua respiração e tudo fica mais difícil. E aí, apesar de você ter muitas pessoas com quem contar, só pode contar com você mesmo para melhorar.

Mas você não desiste. Todo dia no mesmo horário e local está lá: apreensivo para a visita diária de 30 minutos, às vezes, de 10 minutos. É isto, não tem o que fazer! O relatório do hospital que coloca a situação do paciente é assustador e dividido em escalas hierárquicas (do menor risco para o maior): a) inspira cuidados; b) grave; c) gravíssimo. Você chega lá e sua mãe lhe diz: aqui do meu lado já faleceram dois. Parece um sistema industrial em que as máquinas que estragaram e não são mais úteis são retiradas para colocar outras que podem talvez ainda ter algum tempo de vida útil. É assim o sentimento daquele ambiente inóspito. É claro que é um ambiente humanizado. Profissionais de alta qualidade, muito cordiais e atenciosos (comentário direcionado, em especial, para o HCB de Cachoeira do Sul). Por outro lado, a indecisão e a carência de informações são preocupações incidentes que lhe colocam um ponto negativo no atendimento.

O momento pré-visita é algo tenso! Os familiares ali naquela porta esperando para visitar seu paciente – sem saber como ele está, você vê aquele corredor como algo infindável. Não sabe o que fazer pra chegar o mais rápido possível lá. E quando chega, sua mãezinha querida abre o sorriso e lhe espera com um abraço apertado e caloroso. Mas com o passar dos dias, isso vai perdendo a graça. Você vai cansando, chegando cada vez mais lento, com menos empolgação, pois nunca lhe fornecem um encaminhamento palpável da situação. E ali estão os dois: mãe e filho a derivas, num mar sem jangada, esperando alguém vir lhes salvar, seja do mar ou do céu. O filho ainda sabe nadar bem e aguentará, apesar das dificuldades, mas a mãe não terá condições de nadar muito e poderá se afogar a qualquer minuto. E de nada adiantará carregá-la pelos braços na imensidão do mar. Você não tem forças, muito menos tecnologias apropriadas e nem capacidade técnica de velejar...

E aí você coloca todas as suas fichas em algo que não sabe, não conhece, nunca ouviu falar. Deposita sua confiança em algo intangível na esperança de que isso resolva tudo. Orar é preciso, ter fé também, mas chorar é automático.

[Texto relativo aos 11 primeiros dias da saga de Dona Teresinha na UTI de um Hospital... Ao longo do tempo, talvez, as partes subsequentes podem ser publicadas}. 

Para conhecer a saga completa, acesse a página do Facebook "A Vida de Teresinha". Em menos de 5 dias, 22  mil visualizações! 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

A vida era melhor décadas atrás?

Escrito por: 
Henrique Lindner*

*É apresentador de radiojornalismo da Rádio Sobradinho AM 1110 e Membro da Academia Centro Serra de Letras. Tem atuado diariamente no Programa Enfoque (8h30min-10h), no Programa Quadro Geral (16-17h) e no Programa de sábado (08:30min -10h). 

Publicação Preliminar: Facebook Henrique Lindner
Autorizado para publicação no dia 06.05.2015

A vida era muito melhor antigamente, certo? Talvez. A vida era mais simples. Sim, com certeza. Isso era bom? Em parte. Vamos fazer uma pequena viagem ao passado, então?

Trinta, 40, 50 ou até 60 anos atrás tudo era diferente. Nas nossas pacatas cidades todos se conheciam e todos sabiam seu papel na sociedade. Poucas coisas saiam do lugar nas relações comunitárias.

A principal preocupação da maioria das pessoas era apenas sobreviver. Ou seja, ter casa e comida. Quem tinha condições de sonhar com uma vida melhor, de mais conforto? Uma meia dúzia de privilegiados. Os filhos dessas poucas famílias estudavam fora, em colégios particulares e podiam chegar até a faculdade. 

Jamais naquele tempo alguém imaginaria que um dia o filho da empregada doméstica, moradora da parte mais pobre da cidade um dia poderia cursar o ensino superior e, quem sabe, até sonhar em ser médico?

Creche para as crianças? Elas não existiam. A maioria dos jovens do interior mal terminava o ensino fundamental. Os que estudavam na cidade eram poucos, e se sentiam profundamente inferiores aos colegas urbanos, mas era assim que funcionava. Ninguém questionava. Negros eram chamados de macacos – isso não é uma invenção atual - e tudo era tido como normal.

Grande parte dos adultos da época era analfabeta ou mal sabia escrever seu nome. 

Ninguém sabia a diferença entre juiz, promotor, Tribunal de Justiça, STF. Ninguém imaginava que o Presidente da República escolhia os ministros da mais alta corte da justiça. A não ser aqueles poucos privilegiados que tinham mais acesso às esferas políticas. Poucos duvidavam das autoridades civis e eclesiásticas.

Nos bailes mais tradicionais, só entrava quem a diretoria julgava conveniente. Pretos, só nos bailes deles, onde os brancos iam pra cobiçar as mulatas. 

Os agricultores não tinham a concorrência da China ou da Argentina. Eles entregavam a produção para o comerciante da localidade, que geralmente era o líder local, ou no máximo para a cooperativa em troca de mercadorias. Com o que sobrava passavam o ano. Financiamentos com juro baixo? Capaz!

Se um pai chegava bêbado em casa, e batia na mulher e nos filhos, não havia Estatuto da Criança e do Adolescente ou Lei Maria da Penha para proteger. A função da mulher era ter filhos. E muitos. Seis, 8, 10, 12. E ainda precisava ir pra roça. As que fugiam a esse estereótipo eram mal faladas. Depressão pós-parto? Isso nem passava pela cabeça das pessoas quando mal havia médicos para fazer o parto. Psicólogos? Se havia, era coisa pra loucos.

Os homossexuais já existiam, mas eram enrustidos. Os que podiam, mudavam para cidade grande onde era mais fácil ser um anônimo. Os que se assumiam nas pequenas comunidades viravam figuras caricatas. Falar sobre este assunto? Nem pensar. Liberdade de expressão? dependia do que você pensava em dizer. 

Filho nenhum podia discutir com o pai, mesmo quando o pai visivelmente estava errado.
E assim eu poderia enumerar uma longa lista de situações que retratam a realidade de algumas décadas atrás.

Será que a vida mesmo melhor naquele tempo?
Geralmente lembramos do passado com nostalgia. A vida era mais simples, sim. Menos neurótica. Sim. Mas aqueles tempos não eram só flores, não. E muitos, a maioria, se conformava em não ter ambição ou perspectiva nenhuma.

O que aconteceu ao longo dos tempos foi a complexificação da sociedade em decorrência da revelação dessa realidade. Tudo já estava ali, mas era como se não existisse. Por isso, hoje, temos tantos debates acalorados, tantas divergências, numa realidade em que aparentemente não há mais certeza sobre nada. Isso causa um grande mal estar. As coisas parecem estar fora de lugar. Para os mais apegados ao passado, os mais conservadores, esse mal estar é ainda mais forte.

Eu também tenho saudades de décadas passadas. Mas certamente só daquilo que me marcou positivamente naqueles tempos. É da natureza humana supervalorizar o que passou. Tenho saudade da infância, obvio; do rock dos anos 70 e 80, da MPB da época, das revoluções culturais, da intensidade daqueles tempos, em que a vida era mais ingênua e romântica.

Nossa vida está mais difícil de viver atualmente? Sim. Causa mais angústia? Sim. Essa nova realidade exige muito mais capacidade de discernimento das pessoas. Hoje há excessos de possibilidades o que dificulta nossas escolhas e uma sociedade mais livre com personagens que antes eram excluídos.

Isso causa muita confusão em nossa mente. É o preço que pagamos por nos conhecermos um pouco melhor e por não querermos admitir que, em muitas situações, estávamos errados. E muitos, simplesmente não conseguem abandonar o conforto que as falsas certezas garantiam.

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terça-feira, 3 de março de 2015

Revista Extensão Rural publica nova edição



Em 2015, a Revista Extensão Rural completa 22 anos. O periódico Extensão Rural é uma publicação científica do Departamento de Educação Agrícola e Extensão Rural do Centro de Ciências Rurais da Universidade Federal de Santa Maria destinada à publicação de trabalhos inéditos, na forma de artigos científicos e revisões bibliográficas, relacionados às seguintes áreas: 

i) Desenvolvimento Rural, 
ii) Economia e Administração Rural, 
iii) Sociologia e Antropologia Rural, 
iv) Extensão e Comunicação Rural, 
v) Sustentabilidade no Espaço Rural, 
vi) Saúde e Trabalho no Meio Rural. 

Informamos que está disponível a edição 2014-4 da Extensão Rural (Santa Maria). Nesta edição, a revista apresenta 06 artigos.


Sumário


Annahid Burnett


Diego Neves de Sousa


Diana Mendes Cajado, Ivana Leila Carvalho Fernandes, José Glaudervane Silva, Gema Galgani Silveira Leite Esmeraldo


Luiza Araujo Damboriarena, João Garibaldi Almeida Viana


Martha Lisa Rodrigo Schuck, Joaquim Pizzutti dos Santos, Roberta Mulazzani Doleys Soares, Giana da Rocha Zófoli, Liége Garlet, Giane de Campos Grigoletti


Anderson Sartorelli, Anelise Graciele Rambo



Para abrir o quarto volume da Revista Extensão Rural apresentamos o artigo da Profª. Annahid Burnett que trata de compreender as práticas socioeconômicas as quais instituíram a Feira da Sulanca da Mesorregião do Agreste de Pernambuco. Burnett apresentou no trabalho que o referido aglomerado tem como fundamento os costumes de origem rural da região – o sítio como unidade produtiva e espaço para a organização produtiva familiar e domiciliar e a feira como espaço para as práticas socioeconômicas e culturais desses atores sociais. Os costumes permitiram o estabelecimento de redes sociais de parentesco e amizades em nível nacional, transformando simples retalhos descartados em mercadoria e consequentemente em complementação de renda do sítio, conclui a autora.

Nesta edição, a revista publica duas pesquisas – uma sobre extensão pesqueira e outra sobre a pesca artesanal. Estudos estes que merecem destaque por ingressar num grupo seleto de estudos no Brasil sobre a temática. Assim sendo, o segundo artigo é escrito por Diego Neves de Sousa que mapeia os estudos de extensão pesqueira encontrados nos Programas de Pós-graduação em Extensão Rural no Brasil. Sousa afirma que, entre os resultados, considerou que os estudos voltados às questões da extensão pesqueira são escassos e pouco explorados pela academia e instituições de pesquisa e extensão. A carência de dados técnicos, econômicos, sociais e ambientais deste setor é um fator limitante para que extensionistas e empresas de ATER/ATEPA possam realizar uma adequada intervenção pautada nas especificidades dos pescadores e aquicultores familiares, visto que faltam conhecimentos empíricos e teóricos disponíveis para o desenvolvimento da atividade, finaliza o autor.

Em seguida, com tema análogo, o terceiro trabalho é escrito coletivamente por Diana Mendes Cajado, Ivana Leila Carvalho Fernandes, José Glaudervane Silva e Gema Galgani Silveira Leite Esmeraldo. Os autores analisam a pesca artesanal desenvolvida na comunidade Apiques, Assentamento Maceió, Itapipoca-CE à luz da multifuncionalidade e identificam as atividades no âmbito da pluriatividade realizadas pelas famílias desta comunidade. Os autores concluem que as rendas extras, apesar de não estarem diretamente relacionadas com a manutenção dos sistemas de produção, são essenciais para a reprodução familiar. Porém, alertam que a obtenção de renda extra através de trabalhos não agrícolas não aparece externa a todos os tipos de sistemas de produção. Por isso, mostra-se importante ampliar as oportunidades de emprego no âmbito da pluriatividade, afirmam os pesquisadores.

O quarto artigo é assinado por Luiza Araujo Damboriarena e João Garibaldi Almeida Viana. Os autores analisam o mercado externo da carne bovina do Rio Grande do Sul e suas potencialidades em prol do desenvolvimento com base no território das regiões Fronteira Oeste e Campanha do Estado. Os pesquisadores concluem que a carne gaúcha, mesmo apresentando diferencial competitivo, não apresenta valorização superior, visto que os preços médios pagos pela carne do Rio Grande do Sul no mercado internacional são aproximadamente 10% inferiores aos preços médios nacionais. Além disso, a participação do estado no rebanho efetivo nacional é superior a participação no total das exportações. Percebe-se, com isso, uma grande oportunidade para a pecuária de corte através da penetração em nichos de mercados específicos, complementam os autores.

O quinto artigo é escrito coletivamente por Martha Lisa Rodrigo Schuck, Joaquim Pizzutti dos Santos, Roberta Mulazzani Doleys Soares, Giana da Rocha Zófoli, Liége Garlet e Giane de Campos Grigoletti. Neste artigo de caráter conspícuo, será apresentada a construção e a avaliação da eficiência de um coletor solar plano para pré-aquecimento do ar, executado com materiais de baixo custo, a ser utilizado em sistemas de secagem. Os autores concluem que o protótipo do coletor, construído na cidade de Santa Cruz do Sul – RS, com uma área de 3m2, demonstrou ser de fácil execução, de forma que o próprio agricultor poderia fazê-la. Além do custo benefício da utilização de materiais de baixo custo e retorno do investimento em 3 ou 4 anos, assinalam os pesquisadores. É uma contribuição para o campo prático que os agricultores familiares podem utilizar na produção de tabaco.

O último artigo que fecha esta edição é derivado de uma pesquisa de Anderson Sartorelli e da Prof. Anelise Graciele Rambo. Os autores trazem uma proposta teórico-metodológica para compreender como vivem os agricultores familiares produtores de tabaco no município de Laranjeiras do Sul/PR. Desta forma, a proposta desenvolvida consistiu no levantamento do Índice de Meios de Vida (IMV) e do Índice de Condições de Vida (ICV) tendo em vista a implementação da Convenção Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT), um tratado internacional do qual o Brasil é país signatário e facilitador. A hipótese estabelecida pelos autores é comprovada, ou seja, as famílias produtoras de tabaco diversificadas possuem melhores meios e condições de vida em relação às demais. A diversificação produtiva permite uma maior capacidade para funcionar no meio rural ampliando as possibilidades econômicas, sociais e ambientais e as escolhas que as famílias podem realizar para melhorarem o espaço onde vivem e levarem a vida que desejam, concluem os autores. Este artigo fecha este número da Revista Extensão Rural.


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Em 2015 são quatro edições para comemorar vinte dois anos de publicações científicas. Faça parte desta história. Envie sua contribuição científica. Para acessar o portal da Revista, clique aqui


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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Em tempos alucinados


Por ─ €zeqµiel ®edin

Eu não tenho tempo! Quantos de nós não escutamos essa expressão de um amigo, parente, colega de trabalho ou de sua própria família? Estamos alucinados. O tempo e o capital andam numa velocidade sem limites. Tudo isso, tem uma ou mais explicações. 

A sociedade capitalista está vibrada constantemente em função do tempo cronometrado, da produtividade, da mecanização, da modernização, da busca incessante por metas e por lucros. A velocidade do tempo/espaço ratifica um ritmo alucinado, uma corrida contra o tempo, visto que o propósito final é produzir – produzir na “velocidade da luz”. Estamos constantemente alucinados em busca de nossos sonhos capitalistas, vigiados pela sociedade paternal aquela lhe cobra eficácia, legitimando-te a partir de seu sucesso competitivo, sua capacidade de acumular capital (preferencialmente pelo trabalho). 

Associando essa prática ao campo da educação superior, por exemplo, os indicadores de qualidade dos docentes remetem incessantemente a sua produtividade, a números absolutos sobre quantidade de artigos produzidos e publicados em revistas de alto impacto, número de citações, quantidade de orientações, etc. Em um ritmo alucinado, o docente-pesquisador precisa preparar material, ministrar aula, corrigir trabalhos e provas na graduação, ministrar aulas na pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado), orientar acadêmicos nos diferentes níveis, assumir cargos de gestão educacional, palestrar em eventos, produzir textos de alta qualidade, trabalhar como parecerista de periódicos e/ou fundações de financiamento, entre outras atividades. 

Na outra ponta, para exemplificar, encontramos o agricultor ditado pela racionalização capitalista, àquela que o embute no sistema da produtividade absoluta, regrada pela produção contínua de commodities, mas com um limiar, ele precisa se adaptar ao tempo da natureza. O tempo da natureza é diferente, o seu ciclo, suas fases e o seu ano agrícola lhe impõem limites que a industrialização do campo teima em artificializar. 

A pesquisa artificializou várias práticas rurais, com todas as suas variáveis rigidamente controladas. Já se produzem diversos itens da alimentação humana, desde hortaliças até aqueles mais básicos da dieta alimentar, todos artificializados em estufas. A estufa tem a finalidade de proteção contra as intempéries climáticas (chuvas, granizos, etc.), proteção contra insetos, ameniza a ocorrência de pragas e doenças, aproveitam nutrientes e fertilizantes e, assim por diante. Tudo em busca da produtividade e do controle da natureza, em função do relógio cronometrado. As consequências disso são irrogáveis. E o tempo passa. 

Outro exemplo é você, que está lendo esse texto, imbricado no sistema regrado e regido por normativas comunais que foram construídas pela própria sociedade paternalista. Você também já internalizou esses preceitos e não mais os questiona, apenas trabalha para o sistema e contra o tempo. 

Uma pessoa enlouquecidamente ditada pelos afazeres diante de um tempo insano que, ao mesmo tempo, lhe coloca em situação de alienação. De certa maneira, o tempo regido pela busca do sucesso profissional transmite a sensação de incapacidade de vencer as tarefas. Viver nessa escravidão do tempo, nessa corrida maluca pelo lucro ou pela vantagem competitiva preconiza uma escolha ‘forçada’ diante convenções cívicas e morais que estabelecem padrões, regras e instituem a felicidade abalizada nesse ideal de vida.

Tal ideal convoca a traçar projetos buscando riqueza, fama, consumo, viagens, padrões estéticos e uma suposta vida de “qualidade”, processo internalizado e estimulado pelas mídias tradicionais. Qualquer ação que destoe do seu propósito é visto como uma falha humana ou insucesso em algum projeto pessoal, emitindo sentimentos de incapacidade. Esse brilho ofuscado pode gerar, assim, sentimentos de tristeza, agonia, frustração e inferioridade provocando a, intitulada, depressão pós-moderna. E aparece bem no centro do nosso seio psicológico – a chamada infelicidade. 

Para não cair nessa tentação é preciso buscar no tempo, o seu tempo, o tempo de agir e o tempo de viver. De tempos em tempos, podemos viver ‘com tempo’ necessário ao nosso projeto de vida. Penso, e de tempo em tempo, logo repenso.


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Este texto foi publicado no livro VERTENTES 2 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Ser ou não ser agricultor: eis a questão!


Por ─ €zeqµiel ®edin

O que mais me dói na agricultura familiar não é o trabalho, ás vezes, penoso. O que mais dói na agricultura é ver o seu, o meu, o nosso trabalho ‘deslizar por água a baixo’ ou por falta de água mesmo. A lida é bruta, mas bruto mesmo é ver o sonho daquele ano agrícola frustrado. Sua safra prejudicada e suas contas no banco aumentarem invariavelmente. Isso não depende da sua capacidade de trabalho, da sua vontade de ser agricultor ou de sua astúcia como empreendedor rural. Você não depende, somente, do trabalho de sua família. Aliás, acho que o agricultor depende de muita gente e, talvez, seja isso o maior problema da agricultura de base familiar. Dependência de um sistema famigerado, de uma lógica comercial em que o trabalho da família serve para movimentar a cadeia de produção. É uma lógica que tem um viés unilateral que deixa o agricultor embretado, preso, absolutamente, coeso com o sistema, sem chances de reagir.

Não, não estou falando do sistema de integração do tabaco. Estou falando do sistema agroindustrial como um todo, isso inclui as cooperativas, os bancos, os intermediários, as empresas, o comércio e a lógica mercantil. Estamos míopes, não conseguimos mais dar um passo além. Ou é fumo, ou é soja, ou é milho, ou seja, culturas comerciais. A agricultura familiar produzindo como se fosse um grande latifúndio. Mas o mercado não me compra outro produto, afirmam os agricultores. Michall Pollan  – ativista americano e professor de jornalismo – escreveu no livro “O Dilema do Onivoro” que o agricultor está subordinado ao sistema industrial quando comenta que Naylor (o agricultor) destaca de forma mal-humorada a mera ideia de plantar outra coisa. “O que eu vou plantar aqui? Brócolis? Alface? Fizemos um investimento de longo prazo para cultivar milho e soja. O silo é o único comprador na cidade e só me paga por milho e soja. O mercado me diz para cultivar milho e soja. Ponto” (POLLAN, 2007, p. 64).

Realmente estamos presos, não com algemas, mas com a nossa mente e os meios de produção. Por isso, pagamos o preço com as alterações climáticas, as intempéries agrícolas, o desequilíbrio natural, resultado de uma ação desordenada em busca da mercadoria, do capital, do papel-moeda.

 Estamos transformando nossa forma de vida produtiva, numa forma mecanizada de poluir e de captar o máximo de produtividade , sem prever as consequências na natureza. Avançamos nas matas, desembretamos os potreiros, arrebentamos as sangas e envenenamos os rios. Estamos numa situação caótica.

E por algum momento, não temos mais a chance de reversão. Ou seguimos a lógica da máxima eficiência ou sucumbimos na marginalidade da produção. Ou fizemos a colheita em tempo recorde ou sofremos os custos da produção com a perda de nosso produto. O alto custo de produção aliado à baixa capacidade de resposta das famílias rurais tem imbricado num problema social. Até que momento, estaremos presos a um sistema que nos fornece o mínimo para a sobrevivência? O caos na produção de alimentos já se estabeleceu! O leite que você consome não é mais o leite do agricultor, é tudo, menos leite, mas o agricultor ainda produz leite. Para onde vai esse leite? O feijão que você come é um feijão diferente, não é mais o mesmo de duas décadas atrás. A hortaliça que você coloca na mesa, não tem mais a mesma essência. Onde está o problema? Tenho certeza que não é no agricultor.

Estamos passando por um momento preocupante. E os agricultores estão cientes disso, mas precisam adotar estratégias agressivas, iguais a do mercado para sobreviverem. O fumo é a lógica racional de produção. Produzir fumo reflete na permanência das famílias na agricultura, atualmente. Infelizmente, é o que tenho para dizer. Mas produzir fumo também não é garantia de nada. O tabaco está num sistema de produção contaminado, recheado por agentes que abocanham o lucro do agricultor. E aí também ficamos a mercê das condições climáticas que tratam de atassalhar o resto do seu suposto lucro ou ainda trazer grandes problemas para quitar seus financiamentos.

Na safra de 2014/2015 passamos por mais uma seara de intempéries agrícolas que influenciam diretamente na renda da família rural. A produção de tabaco que já não oferece lá tantas vantagens, mas ainda persiste como a melhor alternativa econômica – foi sucumbida pelas intempéries. A safra ‘do tarde’ sofreu com as chuvas diárias e prejudicou a produção, causando um montante de prejuízos econômicos às famílias rurais, o que coloca em risco à sua reprodução social.

O que explica a permanência dos agricultores no meio rural? Como você lida com frequentes frustrações do seu trabalho? No que você se apoia para angariar motivações para seguir na lida da agricultura? São questionamentos que muitos não sabem responder, talvez, seja de difícil resposta até para os agricultores. Mas uma coisa é certa: a agricultura familiar não vive de utopias, ela vive de realidades imediatas. Talvez, a única utopia que os agricultores carregam consigo é a utopia da esperança. Esperança que dias melhores virão, que o suor de seu trabalho seja valorizado, que sua contribuição social seja, de fato, reconhecida. Porque não se faz nada sem motivação e esperança. Por que da vida, levamos a nossa luta e marcamos na pele a nossa batalha diária. Porque ser agricultor realmente é ser um guerreiro! Guerreiro das lidas do campo!

Fotos: Propriedade rural de Arroio do Tigre com produção de fumo prejudicada pelas intensas chuvas nos meses de Dezembro/Janeiro da safra 2014/2015.  



Referência
POLLAN, M. O dilema do onívoro: uma história de quatro refeições. Traduzido por Cláudio Figueiredo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2007.

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