domingo, 19 de julho de 2015

A balada ‪‬ou em busca da balada perfeita


Por ─ €zeqµiel ®edin 

Atualmente, a balada refere-se a um espaço para o encontro de pessoas, um local propício de festejos que possuem algumas características comuns: música, bebida, dança e muita ostentação (tanto física quanto econômica). Neste espaço, a sociedade reproduz as relações sociais imbricada nos seus comportamentos, nas suas formas de ostentação e suas identidades sociais. 

No centro da pista, com poucas luzes, dançam diversos casais – namorados, solteiros, casados, conhecidos e amigos, ao som dos “hits do momento”. A pista de dança representa a distinção entre aqueles que sabem dançar, aqueles que simplesmente dançam e uma ruptura com aqueles que não sabem dançar ou não se aventuram a tal. Outro espaço de distinção é o camarote, pois representa o poder econômico, o privilégio, o apartheid social. São espaços cobiçados, porém, de pouca sintonia. Um lugar a parte, em que você separa, através de uma medida econômica, as pessoas; é o local de condições privilegiadas como o próprio espaço, as bebidas e o atendimento personalizado na balada. 

Parados ao redor da pista, bebendo cerveja, refrigerante ou água (o que importa é consumir algo), homens e mulheres formam grupos, observam as danças e também agitam o corpo; das mais variadas idades, circulam o salão de forma a procurar um par para companhia à noite ou, talvez, alguma troca de carinhos. Impulsionados pela tentação humana alguns disparam olhares como metralhadoras, outros jogam chavões e chamam para a dança. Cenas que parecem surreais na realidade, mas usam essas estratégias para ampliar as possibilidades de conquistar alguém para se relacionar momentaneamente.

A música não agrada a todos, mas todos disfarçam ser agradados pelo ambiente – uma contradição inversamente proporcional. Neste recinto, as pessoas demonstram suas habilidades físicas e corporais num teatro legitimamente vago e ocasional. Nessa dramaturgia, as encenações são formas de sobressaliência, em que se dividem as pessoas legais e bacanas das pessoas chatas e mal-humoradas. Quem dança, quem está alegre e quem toma bebida é bem recebido, por outro lado, quem não dança, não bebe e não interage é malvisto, não se adequa àquele espaço social. O ato de dançar, talvez, seja a maior forma de inclusão/exclusão de oportunidades numa balada. Dançar bem, seja de forma individual ou com um par é, sem dúvida, um recurso privilegiado nesse meio. 

A balada também é um espaço eclético de pessoas, quanto maior o grau de diversidade, melhor a balada. Porém, nem sempre isso é uma verdade. O estilo musical, a estrutura física, o valor do ingresso são elementos de seletividade – portanto, o próprio espaço já seleciona previamente quem irá ocupá-lo. 

Neste local, tudo é psicológico. A balada boa é aquela balada cheia, com música, cerveja gelada e companhia de qualidade inquestionável. Mas, na verdade, tudo isso é questionável. A balada boa para você pode não ser a balada boa para o outro. Um salão enorme com 300 pessoas pode ser considerado uma balada fraca, com pouco público; ao contrário um salão pequeno com 300 pessoas, pode ser considerado uma balada cheia, enorme. Tudo o que se refere na balada é ambíguo e contraditório. As pessoas buscam um espaço público de distração, mas interagem, muitas vezes, apenas com o próprio grupo de amigos. É contraditório e, ao mesmo, tempo aceitável, pois reflete a essência do comportamento social.

A balada transmite a sensação de felicidade e alegria, mas é um espaço efusivo de tristeza e rejeição. A todo instante, ocorrem julgamentos da aparência, do comportamento, do traje que veste, do modo que dança, do corpo físico e das características estéticas. A negação da dança é a rejeição aos elementos visuais da pessoa ou, em outros casos, o não saber dançar. Neste espaço também não se pode esperar algo mais que o ajuizamento da aparência. Aliás, a foto, a bebida, a dança e outros aspectos são formas de exposição que subjetivamente forjam uma identidade inventada. Aliás, o rapaz que se veste de gaúcho numa balada confronta-se entre os elementos do tradicional e do contemporâneo e reforça sua distinção identitária. A moça que adere as roupas da moda forja a transmissão alusiva aos aspectos tributários à modernidade.

Neste local tudo é forjado: o sorriso, a simpatia, a alegria, a ostentação e também o tipo ideal baladeiro. O tipo ideal baladeiro é aquele que completa os requisitos essenciais – bebe, é divertido, dança, interage com as pessoas e toda festa fica com alguém. É o desejado, o suprassumo da balada. Na vida real, o baladeiro ideal nem sempre atinge seus objetivos, mas está ali, tentando, relacionando-se e disposto a enfrentar as diversidades desse ambiente. A balada, na verdade, é o refúgio das amarguras, o local que todos buscam para fugir dos problemas ou a possibilidade de começar um novo relacionamento. Ademais, o espaço é antagônico porque mistura, justamente, todas as imperfeições da natureza humana, até mesmo os valores que um dia julgou correto. O espaço não é um lugar de alegria permanente, porém, nem objetiva ser, mas é um recinto feroz que envolve a interação entre pessoas conhecidas e desconhecidas que almejam buscar ali um momento de distração casual diante das diversas ocasiões turbulentas que a vida nos oferece. 

Estamos a todo instante compartilhando momentos inusitados com a vida, momentos que são bons ou ruins, felizes ou tristes. O que realmente importa é viver de bem consigo mesmo, seja na balada, no bar ou mesmo em nenhum destes recintos – porque a vida é tão curta para guardar ressentimentos sobre o que fez ou deixou de fazer. Seja na balada ou em qualquer outro recinto, o que vale mesmo é viver com intensidade! 

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segunda-feira, 13 de julho de 2015

A carroça e o trator

Entre o passado e o presente, entre o antigo e o moderno! O boi foi substituído pelo trator, mas a carroça, no momento, ainda resiste o duelo contra o carretão – uma readaptação entre o tradicional e o contemporâneo no campo! Contudo, cabe ressaltar que a carroça ‘evoluiu’ –com as rodas de pneus – e continuou firme na disputa. E a pergunta que não quer calar: Até quando?


sábado, 11 de julho de 2015

► Vertentes 2

Foto: Ezequiel Redin

O lançamento do “Vertentes 2”, na noite desta sexta-feira (10), foi coroado com a presença massiva da sociedade nas dependências do Clube Comercial, em Sobradinho. Fiquei surpreso com o impacto desse evento na Região Centro Serra. Sem dúvida, cada autor tem uma contribuição muito particular sobre este fato. Era para ser um evento simples, sem regalo, porém, tornou-se um evento pomposo, brilhante, de grande envergadura. 

Aos amigos e familiares que receberam o convite, faço mea-culpa, pois não consegui dar atenção necessária para cada um; merecem muito zelo especial, porém a dinâmica não permitiu. Mesmo assim, quero dizer que me sinto muito grato pela presença de vocês neste momento. Além disso, muita gente ficou de fora, pois não tive tempo hábil de convidar pessoalmente cada um, além da nossa limitação na capacidade de lotação, restrições estruturais, mas ressalto que teremos outras oportunidades para isto. 

Gratidão por tudo!

A pedido, posto algumas fotos do evento!

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sexta-feira, 3 de julho de 2015

Reprodução – da transcrição à reinvenção


Por ─ €zeqµiel ®edin

Aplicamos tanto a ‘reprodução’ que não pensamos mais sobre como ela afeta nosso cotidiano. A todo o momento estamos reproduzindo algo (no sentido de replicar) – o sistema, a instituição (Estado ou família), o mercado, etc. Sempre temos um modelo para tudo. No ensino primário usamos o livro didático – e os professores são influenciados a empregá-lo como forma de manter um padrão educacional. Nos ofícios do dia a dia, estamos em boa parte do tempo empregando modelos para desenvolver atividades. Para iniciar algum trabalho quase sempre procuramos uma fórmula, uma receita ou algo de base que já foi aplicado anteriormente. Optamos por esta estratégia com vistas a minimizar o risco sobre determinado afazer não se tornar eficaz. Talvez, quando refletimos sobre reprodução ligamos diretamente a reprodução humana, cujos indivíduos constituem famílias, formando novas gerações. A proposta aqui é ir além dessa noção.  

Reprodução, a própria terminologia da palavra clama, em primeiro momento, por uso de maneiras já previamente consolidadas e que, em certa medida, fornecem segurança ao indivíduo. O minidicionário Luft (2000, p. 573) descreve que reprodução é: “1. Ato ou efeito de reproduzir (-se). 2. Cópia, quadro, gravura. 3. Cópia, imitação de obra de arte” . Focamos na definição número 1, e para isso é necessário nova consulta com o termo reproduzir. O mesmo autor definirá: “Produzir(-se) de novo. 2. Multiplicar(-se), perpetuar(-se) pela geração. 3. Repetir(-se); renovar(-se). 4. Imitar; copiar”. Nessas duas conceituações prévias, são citadas três vezes a noção de “cópia” e outras quatro vezes, sinônimos como imitar, quadro, gravura ou repetir.

Nessa acepção, a reprodução é concebida, geralmente, como um ato que envolve o uso de artifícios que, teoricamente, forneceram resultados agradáveis para garantir o futuro. Portanto, criar, imaginar, desvendar e readequar novas formas com a finalidade de perpetuação não estaria comtemplada nessa noção – quando se limita ao uso desses termos. No entanto, quando a conceituação ruma para produzir ou multiplicar, ela prevê que nesse tempo/espaço podem ocorrer reconfigurações, principalmente, quando tratamos da análise do meio social rural. Talvez, a ação, seguida de forma voraz pelos agricultores, está ligada diretamente ao conceito de reprodução como “cópia”, quando replicam os saberes do passado ou quando ‘reproduzem’ o pacote tecnológico tal qual prescreve o sistema de integração. O agricultor internalizou o sistema, tanto quanto cada cidadão vinculado ao padrão ocidental de desenvolvimento.

Atualmente, as unidades familiares ligadas diretamente à produção mercantil são campos de replicação de tecnologias, boas práticas de conservação do solo, de técnicas e procedimentos, misturados com rituais sagrados pela sabedoria popular, ou de evidências sociais em geral. Quando inovações externas são introduzidas, são vistas com receio, repulsa e, caso emergir um insucesso, é ligeiramente renegado socialmente pela comunidade rural; uma estratégia defensiva, de precaução em relação ao futuro da família. O trabalho, ligado diretamente a atividades do sistema de integração, configura-se uma espécie de transcrição literal de procedimentos e receituários agronômicos para um bom desenvolvimento fisiológico da cultura, ou seja, exigem-se das famílias rurais boa dose de disciplina e obediência, traduzidas na forma de capricho e organização na propriedade. Por isso, muitas vezes, o trabalho no rural é considerado repetitivo. Compreendemos a reprodução além da repetição, da cópia ou da transcrição de técnicas ou apuração de saberes tradicionais – são incorporados culturalmente, mas são readaptados e reconfigurados ao longo do tempo, seja por imposição externa ou pela necessidade da família rural.

A reprodução grifada como mecanismo de segurança social equivale também pensá-la como uma arte criativa, de reinvenção de formas de trabalho e sociabilidade, da maneira como é comercializado o produto do trabalho no mercado. Dito isto, a reprodução vista pelo processo de diferenciação é característica intrínseca para auferir autonomia pelos agentes sociais. Por fim, a reprodução não é uma ação vinculada estritamente ao futuro, mas uma ação realizada no presente com vistas à perpetuação da instituição família no ciclo curto e longo. 

sexta-feira, 12 de junho de 2015

A imagem do agricultor familiar

Foto: Agricultor Familiar de Arroio do Tigre, RS*

A imagem do agricultor familiar sempre é diretamente atrelada ao chapéu e a roça. As instituições representativas não conseguem superar o próprio antagonismo. Em vez de reforçar uma identidade positiva, reproduzem uma caricatura que auxilia na depreciação da figura das famílias rurais.

O agricultor que teve seu traquejo social, vestimentas questionadas e concepção de causa-efeito diretamente relacionada à baixa qualificação tem como representação oficial uma imagem vinculada às características que, ainda, denotam no psíquico da sociedade uma concepção de atraso.

Em tempos modernos, não se pode mais aceitar que o agricultor familiar ainda esteja associado a figura do chapéu, da roupa velha e rasgada ou da enxada. Ele próprio está dando indicativos que esta época ficou para trás.

A produção da identidade do agricultor familiar não necessariamente passa por ser representado pela infeliz personagem criada por Monteiro Lobato. O agricultor familiar contemporâneo também é o agricultor que se veste de terno, que é reconhecido por suas atribuições sociais mais relevantes, como a produção de alimentos à sociedade, mas também quer ser reconhecido na sua totalidade cidadã.  

O reconhecimento social da categoria da Agricultura Familiar passa também pela valorização da sua imagem perante a sociedade! E valorizar significa muito mais que caricaturá-lo, mas veiculá-lo as suas capacidades de reprodução e transformação social. Pense nisso! 

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* A foto comparativa é de um agricultor familiar do município de Arroio do Tigre, Rio Grande do Sul. A foto foi autorizada para divulgação, porém os direitos autorais estão diretamente ligados a esta notícia. Não reproduza esta imagem, sem a citação da fonte. 

sexta-feira, 29 de maio de 2015

VERTENTES 2 – obra da Academia Centro Serra de Letras será lançada em Julho de 2015


Nesta coletânea de escritores, especialmente vinculados por raízes étnicas e afetivas no Território Centro Serra do Estado do Rio Grande do Sul, faço uma contribuição com cinco versos (poesias e poemas), uma reunião de sílabas poéticas originado das memórias, vivências e experiências sociais no meio rural. Além disso, completa a minha participação com as cinco prosas (contos e crônicas), uma narração de momentos vividos, bem com a representação de personagens que vivenciaram o mundo rural do passado e vivenciam o presente, com um modo colonial característico de produzir e viver. 

O mais bacana disso tudo, é que essas alucinações poéticas, as reflexões, as memórias de um rural perto e, ao mesmo tempo, distante foi derivado de um projeto pessoal que ganhou contornos em fevereiro de 2010, em pleno segundo ano de mestrado. Nesse momento, resolvi criar um blog pessoal, inspirado num blogueiro que usa seu nome e sobrenome como marca pessoal, com o adjetivo “online”. A partir da constituição do “Blog do Ezequiel Redin Online” transitei das notícias, relatos, coberturas de eventos para as crônicas e reflexões críticas sobre a sociedade (tanto rural como urbana) e suas metamorfoses contemporâneas. Uma pequena parte disso, está incorporado no livro VERTENTES 2! 


É, concomitantemente, uma escrita mais leve, extraída do fundo do coração, de sentimentos que a vida nos promove. Delineados sobre uma única regra, tal seja: a regra de que escrever o que você está sentindo vale a pena! E tenho certeza: está valendo muito a pena!

A obra VERTENTES 2 é uma coletânea da Academia Centro Serra de Letras que conta com 276 páginas e a participação de 19 escritores. O livro está em fase de revisão final, para posterior impressão. O Vertentes 2 é prefaciado pelo jornalista e escritor Romar Beling, de Santa Cruz do Sul.



Lançamento:  
Data: 10 de julho de 2015. 
Horário: 19h 
Local: Clube Comercial de Sobradinho, RS.

As minhas contribuições estão assim intituladas: 

1 – Sol 
2 – Ali tem um rural
3 – Sentimento rural
4 – Menino da roça
5 – O rural
6 – Boca do monte
7 – A sojificação dos campos de futebol
8 – Trabalho ao som de música
9 – Em tempos alucinados
10 – Entre a caneta e o editor de texto...

Aguardem! Em julho de 2015, uma obra com o selo de qualidade da Academia Centro Serra de Letras



sábado, 23 de maio de 2015

Enquanto há vida, há esperança... a saga na UTI de um hospital



27 de março de 2015 foi um dia nebuloso: dia em que a mãe baixou o hospital em decorrência de um AVC hemorrágico.

Em Santa Maria, é inegável que as estruturas psicológicas se abalaram constantemente. A noite não foi mais a mesma, muito menos o sono. Sábado já em Arroio do Tigre, iniciou a jornada incansável em busca da recuperação da matriarca da família Redin. A tarde já estávamos em Cachoeira do Sul, na UTI do HCB. Mas esse espaço de tempo que é pouco, para nós, foi uma eternidade. E aí os dias passam, as horas passam e o contato com o hospital começa a ser rotineiro, frequente, angustiante, de altos e baixos, de muitas e poucas informações, de imprevisibilidades constantes. Na sala de espera da UTI, você conhece pessoas das mais variadas regiões, das mais variadas histórias de vida, um ambiente profícuo de consternação, de aflição, de ajuda mútua, de alegria e tristeza. Não há o que explique de forma tão exata os sentimentos que rondam pelas paredes claras de um hospital.

Qualquer barulho de um equipamento médico é angustiante, preocupante. A falta de informações é pior ainda. A agonia de conseguir apenas duas visitas durante o dia (de 30 min cada) é pior ainda. E aí você entra na UTI e aquele sorriso se abre e diz: “Oi, meu filho! Você veio!” É de rachar o coração. A mãe sempre foi uma pessoa muito positiva em relação a saúde, a vida, ao viver bem com amor e carinho. Mas, ela me surpreendeu, a cada visita, a cada comentário, a sua forma guerreira de vencer os desafios. Acho que herdei muito dela da forma como encaro a vida.

Ser guerreiro, pelear até o fim, com positividade, com força e com autoestima. Ela está me ensinando muito ainda. E o mais contrastante disso tudo: sabia de tudo o que está acontecendo e tinha forças pra seguir firme e forte. Cativou os(as) enfermeiras(os), o(s) médico(s), prometeu pão, cri-cri, e outras coisitas mais que é de sua especialidade na cozinha da agricultura familiar. Como não se motivar com isso? Como não seguir firme e forte vendo que a pessoa que tu mais ama, está ali passando por uma situação delicada e está superpositiva com a vida? É uma lição de vida. Ficamos reclamando de tudo e de todos e esquecemos de viver a nossa vida, do nosso jeito, da nossa forma alegre de viver, nos preocupando com detalhes de outros, de comportamentos alheios. A vida é tão curta pra tanta agonia.

E na sala de espera da UTI, você conhece pessoas, histórias, vidas. Aprende lições, ensina, abraça, conecta vibrações positivas, chora. Os sentimentos são fulminantes. Mas nem tudo são flores. Ao mesmo tempo em que uma pessoa lendo uma bíblia está dizendo que acredita em Jesus, que largou na mão de Deus, suspira, e no minuto seguinte diz que sua mãe morreu pra ela, pois ela se recusou a vir pro hospital cuidar do filho. Então, nesse espaço, também existe muita contradição. Orar para e pelo senhor, mas também transmitir um sentimento de desprezo por uma pessoa da família. Acho que assim, nem a bíblia os salvará!

Nesse espaço (Sala de Espera da UTI), tudo acontece. Você identifica problemas familiares, dos mais diversos. É uma magoa total, um sentimento nada bom. E aí você reflete sobre os diversos motivos que levam as pessoas a fazerem este desabafo. Você está num local em que os teus sentimentos estão confusos, acalorados, a flor da pele, de uma forma está também muito desprotegido, de outra está com vontade de expor isso às pessoas que estão por ali.

E aí, surgem as histórias. Surgem memórias sobre a pessoa internada, seus comportamentos, seus ideais e também seus pontos fracos, a juízo de valor da pessoa que lhe conta. Entre um apito sonoro, inúmeros telefonemas, e muita apreensão é que o enredo descortina-se.

Mas a pior das aflições, julgo eu, é a falta de informações corretas, certeiras sobre seu familiar internado. O que também julgo normal, pois afirmar algo sobre o comportamento/reação de um corpo humano que tem suas especificidades é de grande complexidade.

E os dias seguem...e as respostas também não urgem. Chega um momento que explode em você. A febre bate em seu corpo, a gripe faz questão de atrapalhar sua respiração e tudo fica mais difícil. E aí, apesar de você ter muitas pessoas com quem contar, só pode contar com você mesmo para melhorar.

Mas você não desiste. Todo dia no mesmo horário e local está lá: apreensivo para a visita diária de 30 minutos, às vezes, de 10 minutos. É isto, não tem o que fazer! O relatório do hospital que coloca a situação do paciente é assustador e dividido em escalas hierárquicas (do menor risco para o maior): a) inspira cuidados; b) grave; c) gravíssimo. Você chega lá e sua mãe lhe diz: aqui do meu lado já faleceram dois. Parece um sistema industrial em que as máquinas que estragaram e não são mais úteis são retiradas para colocar outras que podem talvez ainda ter algum tempo de vida útil. É assim o sentimento daquele ambiente inóspito. É claro que é um ambiente humanizado. Profissionais de alta qualidade, muito cordiais e atenciosos (comentário direcionado, em especial, para o HCB de Cachoeira do Sul). Por outro lado, a indecisão e a carência de informações são preocupações incidentes que lhe colocam um ponto negativo no atendimento.

O momento pré-visita é algo tenso! Os familiares ali naquela porta esperando para visitar seu paciente – sem saber como ele está, você vê aquele corredor como algo infindável. Não sabe o que fazer pra chegar o mais rápido possível lá. E quando chega, sua mãezinha querida abre o sorriso e lhe espera com um abraço apertado e caloroso. Mas com o passar dos dias, isso vai perdendo a graça. Você vai cansando, chegando cada vez mais lento, com menos empolgação, pois nunca lhe fornecem um encaminhamento palpável da situação. E ali estão os dois: mãe e filho a derivas, num mar sem jangada, esperando alguém vir lhes salvar, seja do mar ou do céu. O filho ainda sabe nadar bem e aguentará, apesar das dificuldades, mas a mãe não terá condições de nadar muito e poderá se afogar a qualquer minuto. E de nada adiantará carregá-la pelos braços na imensidão do mar. Você não tem forças, muito menos tecnologias apropriadas e nem capacidade técnica de velejar...

E aí você coloca todas as suas fichas em algo que não sabe, não conhece, nunca ouviu falar. Deposita sua confiança em algo intangível na esperança de que isso resolva tudo. Orar é preciso, ter fé também, mas chorar é automático.

[Texto relativo aos 11 primeiros dias da saga de Dona Teresinha na UTI de um Hospital... Ao longo do tempo, talvez, as partes subsequentes podem ser publicadas}. 

Para conhecer a saga completa, acesse a página do Facebook "A Vida de Teresinha". Em menos de 5 dias, 22  mil visualizações! 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

A vida era melhor décadas atrás?

Escrito por: 
Henrique Lindner*

*É apresentador de radiojornalismo da Rádio Sobradinho AM 1110 e Membro da Academia Centro Serra de Letras. Tem atuado diariamente no Programa Enfoque (8h30min-10h), no Programa Quadro Geral (16-17h) e no Programa de sábado (08:30min -10h). 

Publicação Preliminar: Facebook Henrique Lindner
Autorizado para publicação no dia 06.05.2015

A vida era muito melhor antigamente, certo? Talvez. A vida era mais simples. Sim, com certeza. Isso era bom? Em parte. Vamos fazer uma pequena viagem ao passado, então?

Trinta, 40, 50 ou até 60 anos atrás tudo era diferente. Nas nossas pacatas cidades todos se conheciam e todos sabiam seu papel na sociedade. Poucas coisas saiam do lugar nas relações comunitárias.

A principal preocupação da maioria das pessoas era apenas sobreviver. Ou seja, ter casa e comida. Quem tinha condições de sonhar com uma vida melhor, de mais conforto? Uma meia dúzia de privilegiados. Os filhos dessas poucas famílias estudavam fora, em colégios particulares e podiam chegar até a faculdade. 

Jamais naquele tempo alguém imaginaria que um dia o filho da empregada doméstica, moradora da parte mais pobre da cidade um dia poderia cursar o ensino superior e, quem sabe, até sonhar em ser médico?

Creche para as crianças? Elas não existiam. A maioria dos jovens do interior mal terminava o ensino fundamental. Os que estudavam na cidade eram poucos, e se sentiam profundamente inferiores aos colegas urbanos, mas era assim que funcionava. Ninguém questionava. Negros eram chamados de macacos – isso não é uma invenção atual - e tudo era tido como normal.

Grande parte dos adultos da época era analfabeta ou mal sabia escrever seu nome. 

Ninguém sabia a diferença entre juiz, promotor, Tribunal de Justiça, STF. Ninguém imaginava que o Presidente da República escolhia os ministros da mais alta corte da justiça. A não ser aqueles poucos privilegiados que tinham mais acesso às esferas políticas. Poucos duvidavam das autoridades civis e eclesiásticas.

Nos bailes mais tradicionais, só entrava quem a diretoria julgava conveniente. Pretos, só nos bailes deles, onde os brancos iam pra cobiçar as mulatas. 

Os agricultores não tinham a concorrência da China ou da Argentina. Eles entregavam a produção para o comerciante da localidade, que geralmente era o líder local, ou no máximo para a cooperativa em troca de mercadorias. Com o que sobrava passavam o ano. Financiamentos com juro baixo? Capaz!

Se um pai chegava bêbado em casa, e batia na mulher e nos filhos, não havia Estatuto da Criança e do Adolescente ou Lei Maria da Penha para proteger. A função da mulher era ter filhos. E muitos. Seis, 8, 10, 12. E ainda precisava ir pra roça. As que fugiam a esse estereótipo eram mal faladas. Depressão pós-parto? Isso nem passava pela cabeça das pessoas quando mal havia médicos para fazer o parto. Psicólogos? Se havia, era coisa pra loucos.

Os homossexuais já existiam, mas eram enrustidos. Os que podiam, mudavam para cidade grande onde era mais fácil ser um anônimo. Os que se assumiam nas pequenas comunidades viravam figuras caricatas. Falar sobre este assunto? Nem pensar. Liberdade de expressão? dependia do que você pensava em dizer. 

Filho nenhum podia discutir com o pai, mesmo quando o pai visivelmente estava errado.
E assim eu poderia enumerar uma longa lista de situações que retratam a realidade de algumas décadas atrás.

Será que a vida mesmo melhor naquele tempo?
Geralmente lembramos do passado com nostalgia. A vida era mais simples, sim. Menos neurótica. Sim. Mas aqueles tempos não eram só flores, não. E muitos, a maioria, se conformava em não ter ambição ou perspectiva nenhuma.

O que aconteceu ao longo dos tempos foi a complexificação da sociedade em decorrência da revelação dessa realidade. Tudo já estava ali, mas era como se não existisse. Por isso, hoje, temos tantos debates acalorados, tantas divergências, numa realidade em que aparentemente não há mais certeza sobre nada. Isso causa um grande mal estar. As coisas parecem estar fora de lugar. Para os mais apegados ao passado, os mais conservadores, esse mal estar é ainda mais forte.

Eu também tenho saudades de décadas passadas. Mas certamente só daquilo que me marcou positivamente naqueles tempos. É da natureza humana supervalorizar o que passou. Tenho saudade da infância, obvio; do rock dos anos 70 e 80, da MPB da época, das revoluções culturais, da intensidade daqueles tempos, em que a vida era mais ingênua e romântica.

Nossa vida está mais difícil de viver atualmente? Sim. Causa mais angústia? Sim. Essa nova realidade exige muito mais capacidade de discernimento das pessoas. Hoje há excessos de possibilidades o que dificulta nossas escolhas e uma sociedade mais livre com personagens que antes eram excluídos.

Isso causa muita confusão em nossa mente. É o preço que pagamos por nos conhecermos um pouco melhor e por não querermos admitir que, em muitas situações, estávamos errados. E muitos, simplesmente não conseguem abandonar o conforto que as falsas certezas garantiam.

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terça-feira, 3 de março de 2015

Revista Extensão Rural publica nova edição



Em 2015, a Revista Extensão Rural completa 22 anos. O periódico Extensão Rural é uma publicação científica do Departamento de Educação Agrícola e Extensão Rural do Centro de Ciências Rurais da Universidade Federal de Santa Maria destinada à publicação de trabalhos inéditos, na forma de artigos científicos e revisões bibliográficas, relacionados às seguintes áreas: 

i) Desenvolvimento Rural, 
ii) Economia e Administração Rural, 
iii) Sociologia e Antropologia Rural, 
iv) Extensão e Comunicação Rural, 
v) Sustentabilidade no Espaço Rural, 
vi) Saúde e Trabalho no Meio Rural. 

Informamos que está disponível a edição 2014-4 da Extensão Rural (Santa Maria). Nesta edição, a revista apresenta 06 artigos.


Sumário


Annahid Burnett


Diego Neves de Sousa


Diana Mendes Cajado, Ivana Leila Carvalho Fernandes, José Glaudervane Silva, Gema Galgani Silveira Leite Esmeraldo


Luiza Araujo Damboriarena, João Garibaldi Almeida Viana


Martha Lisa Rodrigo Schuck, Joaquim Pizzutti dos Santos, Roberta Mulazzani Doleys Soares, Giana da Rocha Zófoli, Liége Garlet, Giane de Campos Grigoletti


Anderson Sartorelli, Anelise Graciele Rambo



Para abrir o quarto volume da Revista Extensão Rural apresentamos o artigo da Profª. Annahid Burnett que trata de compreender as práticas socioeconômicas as quais instituíram a Feira da Sulanca da Mesorregião do Agreste de Pernambuco. Burnett apresentou no trabalho que o referido aglomerado tem como fundamento os costumes de origem rural da região – o sítio como unidade produtiva e espaço para a organização produtiva familiar e domiciliar e a feira como espaço para as práticas socioeconômicas e culturais desses atores sociais. Os costumes permitiram o estabelecimento de redes sociais de parentesco e amizades em nível nacional, transformando simples retalhos descartados em mercadoria e consequentemente em complementação de renda do sítio, conclui a autora.

Nesta edição, a revista publica duas pesquisas – uma sobre extensão pesqueira e outra sobre a pesca artesanal. Estudos estes que merecem destaque por ingressar num grupo seleto de estudos no Brasil sobre a temática. Assim sendo, o segundo artigo é escrito por Diego Neves de Sousa que mapeia os estudos de extensão pesqueira encontrados nos Programas de Pós-graduação em Extensão Rural no Brasil. Sousa afirma que, entre os resultados, considerou que os estudos voltados às questões da extensão pesqueira são escassos e pouco explorados pela academia e instituições de pesquisa e extensão. A carência de dados técnicos, econômicos, sociais e ambientais deste setor é um fator limitante para que extensionistas e empresas de ATER/ATEPA possam realizar uma adequada intervenção pautada nas especificidades dos pescadores e aquicultores familiares, visto que faltam conhecimentos empíricos e teóricos disponíveis para o desenvolvimento da atividade, finaliza o autor.

Em seguida, com tema análogo, o terceiro trabalho é escrito coletivamente por Diana Mendes Cajado, Ivana Leila Carvalho Fernandes, José Glaudervane Silva e Gema Galgani Silveira Leite Esmeraldo. Os autores analisam a pesca artesanal desenvolvida na comunidade Apiques, Assentamento Maceió, Itapipoca-CE à luz da multifuncionalidade e identificam as atividades no âmbito da pluriatividade realizadas pelas famílias desta comunidade. Os autores concluem que as rendas extras, apesar de não estarem diretamente relacionadas com a manutenção dos sistemas de produção, são essenciais para a reprodução familiar. Porém, alertam que a obtenção de renda extra através de trabalhos não agrícolas não aparece externa a todos os tipos de sistemas de produção. Por isso, mostra-se importante ampliar as oportunidades de emprego no âmbito da pluriatividade, afirmam os pesquisadores.

O quarto artigo é assinado por Luiza Araujo Damboriarena e João Garibaldi Almeida Viana. Os autores analisam o mercado externo da carne bovina do Rio Grande do Sul e suas potencialidades em prol do desenvolvimento com base no território das regiões Fronteira Oeste e Campanha do Estado. Os pesquisadores concluem que a carne gaúcha, mesmo apresentando diferencial competitivo, não apresenta valorização superior, visto que os preços médios pagos pela carne do Rio Grande do Sul no mercado internacional são aproximadamente 10% inferiores aos preços médios nacionais. Além disso, a participação do estado no rebanho efetivo nacional é superior a participação no total das exportações. Percebe-se, com isso, uma grande oportunidade para a pecuária de corte através da penetração em nichos de mercados específicos, complementam os autores.

O quinto artigo é escrito coletivamente por Martha Lisa Rodrigo Schuck, Joaquim Pizzutti dos Santos, Roberta Mulazzani Doleys Soares, Giana da Rocha Zófoli, Liége Garlet e Giane de Campos Grigoletti. Neste artigo de caráter conspícuo, será apresentada a construção e a avaliação da eficiência de um coletor solar plano para pré-aquecimento do ar, executado com materiais de baixo custo, a ser utilizado em sistemas de secagem. Os autores concluem que o protótipo do coletor, construído na cidade de Santa Cruz do Sul – RS, com uma área de 3m2, demonstrou ser de fácil execução, de forma que o próprio agricultor poderia fazê-la. Além do custo benefício da utilização de materiais de baixo custo e retorno do investimento em 3 ou 4 anos, assinalam os pesquisadores. É uma contribuição para o campo prático que os agricultores familiares podem utilizar na produção de tabaco.

O último artigo que fecha esta edição é derivado de uma pesquisa de Anderson Sartorelli e da Prof. Anelise Graciele Rambo. Os autores trazem uma proposta teórico-metodológica para compreender como vivem os agricultores familiares produtores de tabaco no município de Laranjeiras do Sul/PR. Desta forma, a proposta desenvolvida consistiu no levantamento do Índice de Meios de Vida (IMV) e do Índice de Condições de Vida (ICV) tendo em vista a implementação da Convenção Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT), um tratado internacional do qual o Brasil é país signatário e facilitador. A hipótese estabelecida pelos autores é comprovada, ou seja, as famílias produtoras de tabaco diversificadas possuem melhores meios e condições de vida em relação às demais. A diversificação produtiva permite uma maior capacidade para funcionar no meio rural ampliando as possibilidades econômicas, sociais e ambientais e as escolhas que as famílias podem realizar para melhorarem o espaço onde vivem e levarem a vida que desejam, concluem os autores. Este artigo fecha este número da Revista Extensão Rural.


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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Em tempos alucinados


Por ─ €zeqµiel ®edin

Eu não tenho tempo! Quantos de nós não escutamos essa expressão de um amigo, parente, colega de trabalho ou de sua própria família? Estamos alucinados. O tempo e o capital andam numa velocidade sem limites. Tudo isso, tem uma ou mais explicações. 

A sociedade capitalista está vibrada constantemente em função do tempo cronometrado, da produtividade, da mecanização, da modernização, da busca incessante por metas e por lucros. A velocidade do tempo/espaço ratifica um ritmo alucinado, uma corrida contra o tempo, visto que o propósito final é produzir – produzir na “velocidade da luz”. Estamos constantemente alucinados em busca de nossos sonhos capitalistas, vigiados pela sociedade paternal aquela lhe cobra eficácia, legitimando-te a partir de seu sucesso competitivo, sua capacidade de acumular capital (preferencialmente pelo trabalho). 

Associando essa prática ao campo da educação superior, por exemplo, os indicadores de qualidade dos docentes remetem incessantemente a sua produtividade, a números absolutos sobre quantidade de artigos produzidos e publicados em revistas de alto impacto, número de citações, quantidade de orientações, etc. Em um ritmo alucinado, o docente-pesquisador precisa preparar material, ministrar aula, corrigir trabalhos e provas na graduação, ministrar aulas na pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado), orientar acadêmicos nos diferentes níveis, assumir cargos de gestão educacional, palestrar em eventos, produzir textos de alta qualidade, trabalhar como parecerista de periódicos e/ou fundações de financiamento, entre outras atividades. 

Na outra ponta, para exemplificar, encontramos o agricultor ditado pela racionalização capitalista, àquela que o embute no sistema da produtividade absoluta, regrada pela produção contínua de commodities, mas com um limiar, ele precisa se adaptar ao tempo da natureza. O tempo da natureza é diferente, o seu ciclo, suas fases e o seu ano agrícola lhe impõem limites que a industrialização do campo teima em artificializar. 

A pesquisa artificializou várias práticas rurais, com todas as suas variáveis rigidamente controladas. Já se produzem diversos itens da alimentação humana, desde hortaliças até aqueles mais básicos da dieta alimentar, todos artificializados em estufas. A estufa tem a finalidade de proteção contra as intempéries climáticas (chuvas, granizos, etc.), proteção contra insetos, ameniza a ocorrência de pragas e doenças, aproveitam nutrientes e fertilizantes e, assim por diante. Tudo em busca da produtividade e do controle da natureza, em função do relógio cronometrado. As consequências disso são irrogáveis. E o tempo passa. 

Outro exemplo é você, que está lendo esse texto, imbricado no sistema regrado e regido por normativas comunais que foram construídas pela própria sociedade paternalista. Você também já internalizou esses preceitos e não mais os questiona, apenas trabalha para o sistema e contra o tempo. 

Uma pessoa enlouquecidamente ditada pelos afazeres diante de um tempo insano que, ao mesmo tempo, lhe coloca em situação de alienação. De certa maneira, o tempo regido pela busca do sucesso profissional transmite a sensação de incapacidade de vencer as tarefas. Viver nessa escravidão do tempo, nessa corrida maluca pelo lucro ou pela vantagem competitiva preconiza uma escolha ‘forçada’ diante convenções cívicas e morais que estabelecem padrões, regras e instituem a felicidade abalizada nesse ideal de vida.

Tal ideal convoca a traçar projetos buscando riqueza, fama, consumo, viagens, padrões estéticos e uma suposta vida de “qualidade”, processo internalizado e estimulado pelas mídias tradicionais. Qualquer ação que destoe do seu propósito é visto como uma falha humana ou insucesso em algum projeto pessoal, emitindo sentimentos de incapacidade. Esse brilho ofuscado pode gerar, assim, sentimentos de tristeza, agonia, frustração e inferioridade provocando a, intitulada, depressão pós-moderna. E aparece bem no centro do nosso seio psicológico – a chamada infelicidade. 

Para não cair nessa tentação é preciso buscar no tempo, o seu tempo, o tempo de agir e o tempo de viver. De tempos em tempos, podemos viver ‘com tempo’ necessário ao nosso projeto de vida. Penso, e de tempo em tempo, logo repenso.


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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Ser ou não ser agricultor: eis a questão!


Por ─ €zeqµiel ®edin

O que mais me dói na agricultura familiar não é o trabalho, ás vezes, penoso. O que mais dói na agricultura é ver o seu, o meu, o nosso trabalho ‘deslizar por água a baixo’ ou por falta de água mesmo. A lida é bruta, mas bruto mesmo é ver o sonho daquele ano agrícola frustrado. Sua safra prejudicada e suas contas no banco aumentarem invariavelmente. Isso não depende da sua capacidade de trabalho, da sua vontade de ser agricultor ou de sua astúcia como empreendedor rural. Você não depende, somente, do trabalho de sua família. Aliás, acho que o agricultor depende de muita gente e, talvez, seja isso o maior problema da agricultura de base familiar. Dependência de um sistema famigerado, de uma lógica comercial em que o trabalho da família serve para movimentar a cadeia de produção. É uma lógica que tem um viés unilateral que deixa o agricultor embretado, preso, absolutamente, coeso com o sistema, sem chances de reagir.

Não, não estou falando do sistema de integração do tabaco. Estou falando do sistema agroindustrial como um todo, isso inclui as cooperativas, os bancos, os intermediários, as empresas, o comércio e a lógica mercantil. Estamos míopes, não conseguimos mais dar um passo além. Ou é fumo, ou é soja, ou é milho, ou seja, culturas comerciais. A agricultura familiar produzindo como se fosse um grande latifúndio. Mas o mercado não me compra outro produto, afirmam os agricultores. Michall Pollan  – ativista americano e professor de jornalismo – escreveu no livro “O Dilema do Onivoro” que o agricultor está subordinado ao sistema industrial quando comenta que Naylor (o agricultor) destaca de forma mal-humorada a mera ideia de plantar outra coisa. “O que eu vou plantar aqui? Brócolis? Alface? Fizemos um investimento de longo prazo para cultivar milho e soja. O silo é o único comprador na cidade e só me paga por milho e soja. O mercado me diz para cultivar milho e soja. Ponto” (POLLAN, 2007, p. 64).

Realmente estamos presos, não com algemas, mas com a nossa mente e os meios de produção. Por isso, pagamos o preço com as alterações climáticas, as intempéries agrícolas, o desequilíbrio natural, resultado de uma ação desordenada em busca da mercadoria, do capital, do papel-moeda.

 Estamos transformando nossa forma de vida produtiva, numa forma mecanizada de poluir e de captar o máximo de produtividade , sem prever as consequências na natureza. Avançamos nas matas, desembretamos os potreiros, arrebentamos as sangas e envenenamos os rios. Estamos numa situação caótica.

E por algum momento, não temos mais a chance de reversão. Ou seguimos a lógica da máxima eficiência ou sucumbimos na marginalidade da produção. Ou fizemos a colheita em tempo recorde ou sofremos os custos da produção com a perda de nosso produto. O alto custo de produção aliado à baixa capacidade de resposta das famílias rurais tem imbricado num problema social. Até que momento, estaremos presos a um sistema que nos fornece o mínimo para a sobrevivência? O caos na produção de alimentos já se estabeleceu! O leite que você consome não é mais o leite do agricultor, é tudo, menos leite, mas o agricultor ainda produz leite. Para onde vai esse leite? O feijão que você come é um feijão diferente, não é mais o mesmo de duas décadas atrás. A hortaliça que você coloca na mesa, não tem mais a mesma essência. Onde está o problema? Tenho certeza que não é no agricultor.

Estamos passando por um momento preocupante. E os agricultores estão cientes disso, mas precisam adotar estratégias agressivas, iguais a do mercado para sobreviverem. O fumo é a lógica racional de produção. Produzir fumo reflete na permanência das famílias na agricultura, atualmente. Infelizmente, é o que tenho para dizer. Mas produzir fumo também não é garantia de nada. O tabaco está num sistema de produção contaminado, recheado por agentes que abocanham o lucro do agricultor. E aí também ficamos a mercê das condições climáticas que tratam de atassalhar o resto do seu suposto lucro ou ainda trazer grandes problemas para quitar seus financiamentos.

Na safra de 2014/2015 passamos por mais uma seara de intempéries agrícolas que influenciam diretamente na renda da família rural. A produção de tabaco que já não oferece lá tantas vantagens, mas ainda persiste como a melhor alternativa econômica – foi sucumbida pelas intempéries. A safra ‘do tarde’ sofreu com as chuvas diárias e prejudicou a produção, causando um montante de prejuízos econômicos às famílias rurais, o que coloca em risco à sua reprodução social.

O que explica a permanência dos agricultores no meio rural? Como você lida com frequentes frustrações do seu trabalho? No que você se apoia para angariar motivações para seguir na lida da agricultura? São questionamentos que muitos não sabem responder, talvez, seja de difícil resposta até para os agricultores. Mas uma coisa é certa: a agricultura familiar não vive de utopias, ela vive de realidades imediatas. Talvez, a única utopia que os agricultores carregam consigo é a utopia da esperança. Esperança que dias melhores virão, que o suor de seu trabalho seja valorizado, que sua contribuição social seja, de fato, reconhecida. Porque não se faz nada sem motivação e esperança. Por que da vida, levamos a nossa luta e marcamos na pele a nossa batalha diária. Porque ser agricultor realmente é ser um guerreiro! Guerreiro das lidas do campo!

Fotos: Propriedade rural de Arroio do Tigre com produção de fumo prejudicada pelas intensas chuvas nos meses de Dezembro/Janeiro da safra 2014/2015.  



Referência
POLLAN, M. O dilema do onívoro: uma história de quatro refeições. Traduzido por Cláudio Figueiredo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2007.

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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Por que a nota do Enem ou a sua classificação no vestibular não é importante?


Por ─ €zeqµiel ®edin

É de um paradoxo evidente falar sobre qualidade. O que é qualidade na educação? Alunos com notas relativamente alta tem uma educação de qualidade? A pergunta óbvia, talvez, não tenha uma resposta tão óbvia assim. Uma instituição escolar de qualidade possui docentes altamente qualificados e motivados para a construção do saber, bom relacionamento interpessoal, uma consistente proposta pedagógica, metodológica e filosófica, valorização da experiência extraescolar, gestão escolar capacitada, infraestrutura adequada e de alto padrão tecnológico. Uma instituição escolar de qualidade também envolve alunos comprometidos com o processo de aprendizagem, docentes inovadores, estimuladores e dinâmicos, um quadro de colaboradores prestativos e disponíveis para auxiliar no processo. Uma gestão democrática incisiva e comprometida. Aliás, o termo qualidade é amplo, por si só, portanto, ele remete a todo o processo da educação escolar interna e externamente. No entanto, existe, de certa maneira, uma polissemia de interpretações no que se refere à qualidade.

Ademais, de nada serve este emaranhado de condições se você não tem um aluno comprometido com o estudo, com a sua aprendizagem. Uma nota alta no Enem não equivale que este aluno seja o melhor aluno da sala, não equivale também que ele se torne um melhor profissional do ramo. É claro, as tendências podem induzir a isto, mas depende estritamente do seu comportamento ao longo do curso. O que quero dizer é que uma nota baixa no Enem ou no vestibular não significa que este candidato é marginalizado, que estamos num quadro sintomático de problemas na educação e que ele beberá das piores fontes que a vida há de lhe oferecer. Isso é um determinismo ilógico e irracional que corrói a capacidade das pessoas evoluírem ou dedicarem-se para aprender mais, saber mais, ser mais.

Vou exemplificar: hipoteticamente (o que é muito provável acontecer), um candidato passou na posição 83 de 80 vagas, ou seja, ficou na suplência do curso escolhido. O sonho desta pessoa era ingressar no ensino superior, ela planejou tudo para isto acontecer, dedicou esforços numa divisão de tempo entre estudos e trabalho, pois ela é considerada hipossuficiente economicamente (baixa renda) e precisa mover esforços para garantir as suas necessidades fisiológicas (comer, beber, abrigo, etc.) e necessidades de segurança (sentir-se seguro dentro de uma casa, segurança como um emprego estável, um plano de saúde ou um seguro de vida). Sim, estou falando da hierarquia de necessidades de Maslow, também conhecida como pirâmide de Maslow.

Esta pessoa percebe que a educação superior é uma estratégia para mudar suas condições de vida, uma forma de ascensão social, ou apenas, uma forma de conseguir um emprego com melhores condições do que faz hoje. No entanto, esse sonho é aniquilado pela sua má classificação no vestibular. E, isto está desconsiderando as condições que o aluno fez a prova: com uma música alta ao lado do local do exame (aconteceu comigo no Enem); de uma sala de aula extremamente quente, sem ar condicionado; ou muito fria; a presença de fiscais com comportamento agressivo; a sua má condição de saúde no dia da avaliação; entre outros aspectos como, por exemplo, a falta de mediação do tempo na prova. Isto resultou em sua nota baixa e classificação tardia, devido ao pouco tempo de dedicação para os estudos, uma vez que a pessoa trabalha para sobreviver. Nesse contexto, consideram inapta para ingressar no curso superior. Ela está no grande grupo dos críticos do Enem, endossa os argumentos dos analistas que a educação está precária, que o Brasil não investe em educação, que as escolas não fornecem condição alguma para os alunos, que os alunos não sabem escrever, pois 500 mil tiraram nota zero na redação do Enem. Os argumentos são disparados como arma de fogo contra esses estudantes, contra o Estado e contra todos que pensam em contrariá-los. Eles detêm o poder – o poder da escrita e da oratória. É isso: estamos fadados ao caos na educação, dizem os críticos.

Aí, este candidato(a) hipotético é chamado para ingressar no ensino superior, pois outros candidatos não assumiram a vaga, pois passaram num curso de maior status, ou numa universidade mais pomposa. A alegria paira na face desta pessoa: o seu objetivo crucial que era passar a barreira do vestibular foi atingido. E isto é um sonho realizado, pois a sociedade é seletiva, seleciona sempre os melhores naquele momento. E o candidato conseguiu, mediante todas as dificuldades, o mínimo necessário para ingressar no curso superior. Sua vontade é tamanha, que não perde um minuto de aula, de palestras, de seminários, engole livros, abocanha os espaços estudantis e sacrifica-se financeiramente em prol do conhecimento, do estudo e da vida universitária. Como entrou numa universidade pública, mas não aquela preferencial, não dispõe de certas comodidades como casa do estudante, restaurante universitário e muito menos bolsa de estudos. Aí se vira como pode, conta os centavos para comer um lanche e poupa dinheiro para comprar o xerox da disciplina – o conhecimento antes da alimentação. Assim, em poucos semestres, vira referência na turma, sendo o potencial aluno que se destaca, aquele que deu o valor ao pouco que têm e chama a atenção dos colegas pela sua postura, por sua vontade e brilha os olhos dos professores atentos à caminhada da turma.

Este aluno, antes um possível marginalizado, prevê que pretende continuar estudando. Analisa as opções e começa a focar num mestrado. Antes do final do curso, o aluno/candidato já passou em duas ou três seleções de mestrado numa das melhores universidades públicas do país. Mas isso não lhe garantiu nada ainda, talvez, uma bolsa provisória de estudos. O aluno continua afinco, pois precisa provar para outras pessoas, outros professores e outra universidade que ele necessita, ele quer, ele está com muita vontade de aprender e ser um ótimo profissional. E ele consegue isto: ingressa no doutorado nesta universidade e em outras universidades públicas. Faz o doutorado com muita dedicação e persistência. Finaliza o doutorado e prevê tornar-se um professor universitário. Sua condição social ainda é questionável, mas, de certa forma, sem dúvida, o campo de oportunidades aumentou muito.

O que quero dizer com isto? Apenas uma palavra: Oportunidade. Dê oportunidade às pessoas, elas podem te surpreender. E isto, mal ou bem, está melhorando em nosso país. Aumentaram-se as oportunidades de ingresso no ensino superior, mas, agora, é o momento de questionar de forma mais veemente como está se dando este acesso. Porém, nem sempre os elementos – vontade, motivação e persistência – são suficientes para continuar os estudos ou ascender socialmente. O que argumento neste texto é que além de oportunidades de acesso, também são necessários os elementos intrínsecos à conduta humana. Portanto, a qualidade não vem do outro, não vem do professor ou da infraestrutura disponível, ela apenas depende da pessoa e das oportunidades que ela tem na vida. Por isso, argumento que as notas da prova do Enem ou a sua nota no vestibular não são importantes ao ponto de gerar indicadores passíveis de generalização. Em outras palavras, sua nota alta no Enem não quer dizer necessariamente que você terá distinção posterior, simplesmente, lhe garante o acesso.  

Esta não é a minha história, apesar de ser muito parecida, mas pode ser a sua história, a história de cada estudante que teve uma única oportunidade na vida. Oportunidades e acesso a educação superior são condições básicas para que as pessoas possam potencializar um incremento qualitativo nos indicadores do Índice de Desenvolvimento Humano. Esta é minha opinião!


Indicação de vídeo: O segredo da Educação

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

96% na redação do Enem! O que isso quer dizer? Nada!


Por ─ €zeqµiel ®edin

Este ano me submeti a avaliação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Desde 2004 não realizava as provas do Enem, mas acompanhei atento aos comentários, as críticas ao exame e as suas readaptações ao longo do tempo. O exame é indispensável, atualmente, para o ingresso no Ensino Superior. Inúmeras universidades públicas, além das particulares utilizam a nota para ingresso.

No ano de 2014, me propus a resolver a prova com objetivo de sentir na pele a emoção do exame e compreender suas torturas psicológicas entre os vestibulandos. O primeiro dia foi cansativo, mas tranquilo. Terminei a prova faltando meia hora, sem necessidade alguma de apertar o botão automático da caneta para ligar o chutômetro. Aliás, quando resolvi as questões de química me senti um completo alienado ao mundo químico, parecia que estava descobrindo um mundo novo em que nunca tinha pisado, o que é mentira, pois pisei muito nesse mundo e interpretei muito as tais fórmulas de química. O chutômetro garantiu uma nota relativamente boa nesta disciplina, dada minha incapacidade de compreender o conteúdo. O tempo de duração do primeiro dia de provas do Enem foi de 4h30min.

O segundo dia me preparei psicologicamente para a redação. Por sua vez, o tempo no segundo dia foi acrescido apenas 1h, contabilizando, desse modo, 5h30min. Desta maneira, no sábado, as provas foram aplicadas até as 17h30min e, no domingo, até as 18h30min. O tema da redação era publicidade infantil em questão no Brasil. Usei um tempo razoavelmente bom para rascunhá-la por completo e, após, transcrevê-la para a folha oficial. Pensei: fiz uma redação boa. Cabe destacar, reiterando o óbvio, que elaborar uma redação exige tempo, dedicação e uma boa análise sobre o tema. Essencial para conseguir um texto com um mínimo de qualidade. Bom, agora, vamos para as questões. Previa o seguinte cenário: a minha prioridade era a redação, caso escasseasse o tempo, era mais fácil usar a estratégia do chutômetro do que tentar escrever um texto, por isso, redação primeiro, questões por último.

E parece que a tragédia estava anunciada. Ora, se no primeiro dia consegui terminar a prova meia hora antes do final do horário estabelecido, com 90 questões; no segundo dia, com apenas 1h a mais na prova, era quase lógico que não conseguiria realizar uma redação de boa qualidade em apenas, 1h30 min (1 h + 30min que sobrou do tempo da prova do primeiro dia - um cálculo, somente, meu).

As questões do Enem envolveram algumas com maior nível de dedicação, outras com análises mais óbvias. No entanto, em minha percepção cognitiva, de um candidato que não está preparado pela máquina do vestibular para correr contra o tempo ou para mediar o tempo, era necessário, no mínimo, três (3) vezes a leitura de uma questão para aumentar o percentual de acerto para 90%. Ou seja, se fosse ler três vezes, meu inconsciente me dizia que provavelmente teria grandes possibilidades de acertar a questão. E foi mais ou menos por aí que aconteceu.  

A história foi o seguinte: faltavam 30 min para o término da prova no domingo, ou seja, eram 18h, e o candidato que aqui vos escreve, faltava resolver 32 questões. Ou seja, menos de 1 minuto para cada questão. Qual foi a lógica: uso do chutômetro. Somente, assim dei conta de fazer todas. Não precisa nem perguntar o nível de acertos, pois errei a maioria das 32 questões. Isso é, novamente, óbvio.

Portanto, ontem, 13/01, saiu o resultado: acertei 96% da redação. O que isso quer dizer? Nada! Quer dizer que fui bem na redação, pois dediquei um tempo expressivo para ela, porém sacrifiquei muitas questões que, caso tivesse tempo disponível, acertaria muitas delas. Os críticos dirão que eu não estava preparado para a prova do Enem, que não soube mediar o tempo e que um aluno saindo do ensino médio já previa essa dificuldade. Sei não hein! Outros podem fazer comparação ao vestibular da Universidade Federal de Santa Maria que oportunizou três horas para seus candidatos realizarem uma redação sobre a juventude conectada – evolução ou problema social.

Para concluir minha linha de raciocínio, quero afirmar que a prova do Enem que se consagra numa prova que faz o aluno pensar, raciocinar e interpretar é, ao mesmo tempo, ambígua, pois não deixa o candidato pensar, raciocinar e interpretar a redação, pois valora questões extensas e, algumas, de complexa resolução. O Enem evoluiu, e isto não se pode negar. No entanto, é preciso evoluir nos métodos de aplicação, nas formas de elaborar a prova e no tempo disponível. É lógico e evidente: padronizar a agilidade do pensamento humano nunca foi uma tarefa fácil, mas considerar que todos são ágeis na resolução dos seus problemas é, no mínimo, um pensamento retrógrado. Aí, estamos falando em eficiência (fazer certo as coisas) e eficácia (fazer as coisas certas) na resolução da prova. Não fui eficiente nas questões, pois não consegui fazer as questões de forma certa com menor uso de recursos e menor tempo possível, não dominei todo o processo e não fui habilidoso e rápido na prova objetiva. No entanto, ser eficiente não equivale resolver os problemas, pois posso ter feito a prova de forma rápida e habilidosa e, no final, tirar uma nota muito baixa. Enquanto posso dizer que fui muito mais eficaz na redação, pois eu pensei antes de realizá-la e fiz as coisas certas para resolver meu problema: atingir uma nota razoavelmente boa.

Atingir 96% na redação pode significar nada ou muita coisa, depende do seu ponto de vista. Nesse texto, assumi que não significa nada, mas isso não significa que nada é nada! Portanto, até na própria semântica “nada”, se pode dizer muita coisa. No entanto, apesar disso, entre escolher um processo seletivo: a) com ENEM; ou b) Sem ENEM; prefiro ainda optar pela letra A − com ENEM. Porém, com um ENEM aperfeiçoado! Esta é minha opinião!


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