domingo, 26 de outubro de 2014

Campeonato Municipal de Futebol de Campo em Arroio do Tigre 2014 - Semifinal

No sábado, 25 de outubro de 2014, ocorreu a sequência das semifinais do Campeonato Municipal de Futebol de Campo no Estádio Municipal Carlos Ensslin em Arroio do Tigre. Pela série “B” jogaram Juventus/Camangang x Botafogo. Pela série “A”, jogaram Juventude Unida x Aimoré.

Juventus/Camangang x Botafogo

Pela série “B”, sob forte sol da tarde, a partida foi equilibrada. O time da Juventus/Camangang pressionou várias vezes no ataque adversário, mas era bloqueado pelo goleiro do Botafogo. O arqueiro do time do Botafogo foi decisivo para frear o time adversário. No primeiro tempo, a partida encerrou sem gols. Na segunda etapa, o time do Botafogo saiu na frente com uma bola alçada na área e uma cabeçada certeira no contrapé do goleiro (1x0). 

O jogo se encaminhava para o final, quando o time do Juventus/Camangang pressionou pela direita e sobrou uma bola livre para o jogador marcar o gol e empatar o jogo (1x1). A partida terminou, e foi para as penalidades máximas. O time da Juventus/Camangang converteu 4 bolas, enquanto o time do Botafogo 3. Juventus/Camangang passou para a final do campeonato e disputará a taça da Série B contra o time da Juventude Unida de Linha Paleta.



Pela série “A”, jogaram Juventude Unida x Aimoré. O time do Aimoré começou melhor em campo, mas quem marcou primeiro foi a Unida com uma bola alçada na área em que o centroavante bateu, mas a bola acabou sobrando para Maurício abrir o placar no central da grande área. Minutos depois, Carlinhos da Unida faz penalidade em Jonas da equipe do Aimoré. Carlinhos leva amarelo e Aimoré empata a partida (1x1). 

Em seguida, num lançamento do time da Unida para a área do time de Linha Taquaral, o zagueiro coloca a mão na bola. Juventude Unida converte (2 x1). No segundo tempo, o jogo foi tranquilo até Michel bater uma falta no ângulo do arqueiro do Aimoré, fazendo o terceiro gol (3x1) e decretando praticamente a vitória do time da Unida. A equipe de Linha Paleta ainda perdeu outras oportunidades de ampliar o placar. A Juventude Unida disputará a taça da Série A contra o time da São Roque.

Unida x Aimoré

Final – Série B
Juventude Unida x Juventus/Camangang

Final – Séria A
Juventude Unida x São Roque

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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O projeto camponês em permanente [des]construção


Em pleno início do horário de verão, na madrugada do acender de domingo, por volta das 4 da manhã, o tempo mudou, as luzes se apagam e o cenário se arma. Não, isto não é um filme, muito menos ficção. É a mais pura realidade.

Vento, muito vento. Chuva, raios e trovões eclodem de um cenário escuro. Momentos de tensão. Barulho no telhado, árvores são arrancadas, animais mortos, suas vidas são ceifadas. A família reza e joga água benta, recorre a fé.

O temporal termina.
O sono já não é mais o mesmo.
A preocupação se instaura.
O dia amanhece e a lágrima desce.

O fruto do trabalho do agricultor está literalmente no chão. Um sentimento de agonia e incapacidade. Incapacidade porque você não tem ação sobre a natureza, você não depende, somente, de seus conhecimentos na área agrícola ou na sua capacidade de trabalho no meio rural. Tua história, tua vida econômica e tua consolidação como agricultor dependem, antes de tudo, também do tempo, de bons dias de sol, boas chuvas e um cenário relativamente normal durante o ano agrícola. 

Um cenário de normalidade é extremamente desejado pelas famílias rurais durante o ciclo produtivo. Nem o conhecimento e a sabedoria são suficientes para estas condições externas, oriundas da natureza. As intempéries climáticas no decorrer da safra podem colocar em risco a produção agrícola, por exemplo, pela ocorrência de temporais, granizos, vendavais, excesso ou escassez de chuva, entre outros. E, foi isso, o que aconteceu neste domingo no interior de Arroio do Tigre.

Mas também, enquanto agricultores, temos que fazer mea-culpa, o ethos desbravador do colono (o da colonização) que internalizou que suas estratégias de expansão e de adaptação a sociedade do “agronegócio” tem sido permanentemente a pressão em cima das matas ciliares, do constante desmatamento em virtude da produção da soja e do fumo em especial. A soja, a vilã na agricultura familiar, tem acabado até com as curvas de nível, com potreiros, com estradas e com matas ciliares importantes que protegiam as instalações das propriedades. Além disso, por um rendimento irrisório para aqueles que tem poucos hectares de terra. É claro, que a soja na agricultura familiar tem liberado mão de obra para outras culturas, tem também cumprido com a função da completude da gestão da propriedade e com a “limpeza das áreas”.

E nesse fenômeno, muitas propriedades têm sido constantemente afetadas pela falta de quebra-ventos, em outras palavras, por escassez de mato em volta de suas instalações. Isso justifica só em parte e só um pouco do que a ação do homem sobre a natureza tem instaurado consequências drásticas ao seu próprio desenvolvimento. Mas não podemos cair na ostentação de jogar a culpa no outro, o que chamo de imperialismo urbano. Temos cidades mal planejadas, num constante desequilíbrio ocupacional, áreas de risco, uma completa marcha em prol do tempo e do capital, numa velocidade sem limites, vibrada na onda incessante de lucrar mais...

No entanto, dessa vez, nem as árvores foram suficientes para segurar o temporal que se instalou na região. Os rastros da destruição foram intensos, casas, postes de luz, escolas e galpões. Sem energia elétrica, sem telefone e sem água, com trafegabilidade limitada pelas árvores e postes que caíram nas estradas. Animais foram mortos. As aulas cessaram permanentemente. Um cenário de aflição.

Esse é o cenário dramático no interior de Arroio do Tigre. Em nossa propriedade, parte do telhado se foi, folhas de amianto rodopiaram no ar como se fossem jogadas ao vento. Eucaliptos de 10 anos, em torno de 70 pés, se desprendiam no chão como se fossem mudas sendo arrancadas para transplante. Outros, sendo quebradas como se fosse um caule de feijão.


Numa rápida passada pela rede social, é triste ver fotos de destruição nas propriedades dos agricultores familiares, vizinhos de porteira. E o projeto camponês? Desde criança presenciei cenários conflitantes no rural, a presença de vulnerabilidades econômicas constantes, frente aos prejuízos financeiros por uma má colheita, por uma chuva de granizo, por um cenário agrícola não favorável. Ser agricultor familiar, no mundo contemporâneo, exige muita persistência para não abandonar o projeto de vida rural, muita teimosia para reconstruir a cada momento sua propriedade. Muita vibração e pensamento positivo para enfrentar a agonia de uma safra perdida.

Os agricultores familiares são verdadeiros heróis da resistência. São heróis da nossa mesa. O projeto camponês é, acima de tudo, o amor pela terra, o apego pela vida do campo, o viver do e no rural. Não são elementos estritamente econômicos que movem sua ação no mundo rural. Mas como é difícil viver economicamente num rural em aflição, marcado pelas raízes da desvalorização do trabalho rural e da desvalorização do produto de seu trabalho. É uma verdadeira luta, de uma ambiguidade social com raízes históricas. E aqui faço analogia com o professor. Professor e Agricultor tem funções sociais, portanto, ambos carecem da valorização econômica. Amar a profissão é importante (como ambos amam), mas como diz o ditado popular: “nem só de amor vive o homem”.

Muita persistência meus heróis, agricultores familiares desse rincão. Vamos reconstruir! Pai, mãe e mano, vamos de novo, porque a vida é feita de lutas diárias. Amém!


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domingo, 28 de setembro de 2014

│Arroio do Tigre em poesia│


Houve a terra seu nome enleado,
Em vila, já histórica, um dia,
Em virtude de um belo arroio
Que, entre os matos, de longe se via

E os animais ferozes, um dia,
Que se protegiam dos homens que ali viviam
Alçadas as armas, no cenário temido,
Quando a onça teve um dia, o último gemido.

Assim todos diziam, e um nome trocado um dia
Afincou o Arroio do Tigre no centro de nossas referências,
E, espalhando as grandes honrarias,
Sobre as terras, desbravadas um dia.

Terra de tabaco, feijão, soja, milho e muito grão,
Tem povo hospitaleiro, de muito vigor e união.
Calcados na fé e no trabalho
De longe construíram um grande celeiro.

Arroio do Tigre, no alto localizado
De povo festeiro, e muito ordeiro,
Um lugar muito hospitaleiro,
Grande Arroio do Tigre, o nosso pago celeiro!


─ €zeqµiel ®edin

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segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A sojificação dos campos de futebol

Por: Ezequiel Redin


Nas últimas duas décadas, o processo de modernização rural tem se expandido e consolidado, o núcleo familiar tem reduzido e o futebol de campo no rural suprimido. Boas lembranças dos consolidados times de futebol amadores formados nas localidades rurais. Equipes expressivas cunhavam o nome da localidade rural, marca estampada na camiseta de sua equipe de futebol. Gloriosos tempos em que jogadores da comunidade elaboravam jogadas de alto nível técnico, armavam estratégias táticas para desarmar o adversário, faziam belas pinturas de gol nos campos rurais. Épocas em que um chute torto na bola poderia lançá-la para o famoso “mato”. A gíria: “bola pro mato que o jogo é de campeonato”, quiçá, deve ter origem dos campos de futebol no rural.

Equipe A e Equipe B jogavam amistosos, torneios, campeonatos municipais, disputavam taças em jogos de alto nível técnico e também de alto vigor físico. A força do futebol rural culminou a tal ponto que o seu auge foram os Campeonatos Municipais de Futebol de Campo (Varzeanos), anteriormente disputados apenas na cidade, no decorrer da década de 90 foram distribuídos nos campos das localidades rurais, de suas respectivas equipes participantes. Fator que endossou a socialização no rural, fortaleceu a rede de relações interpessoais, dinamizou as sociedades e organizou verdadeiros tours esportivos entre as comunidades.

O domingo era dia abençoado. Dia de ir à igreja pela manhã e dia de ir para o jogo de futebol pela tarde – duas missões sagradas. Os campos eram rodeados de torcedores que chegavam nas mais diversas formas: a pé, a cavalo, de bicicleta, de carro ou de caminhão. Geralmente, o time adversário e sua torcida deslocavam-se em caminhões lotados, os mesmos que transportavam soja.

No local do jogo existia um galpão (estilo cabana), ponto de comercialização das bebidas (cerveja, refrigerantes e cachaças), das guloseimas (chicletes, balas, pipocas, merendinhas), dos lanches (cachorro-quente e pastel) e outras delicias de final de semana para o público presente. A torcida se acomodava atrás das goleiras, nas laterais do campo e, em geral, embaixo de árvores ou coqueiros em busca de alguma sombra para suportar a tarde calorosa. Homens, mulheres, jovens e crianças, a família toda reunida para uma partida de futebol no rural.

A bola rolava. Primeiro, no alto sol da tarde, jogava a equipe B, teoricamente menos habilidosa e, posteriormente, a equipe A, teoricamente com atletas mais habilidosos. Os jogos eram acirrados, nervos a flor da pele e provocações constantes tanto entre os atletas quanto entre as torcidas. Torcedores ferrenhos, aqueles mais convictos na vitória de seu time. Nem tudo eram flores, existiam brigas entre jogadores ou entre torcidas. Ás vezes, tijolos ou garrafas voavam alto demais. Excetuando essas externalidades, o futebol de campo, sem dúvida, dinamizava o meio rural.

Foto oficial do E.C Paleta em jogo amistoso (1974) 

Aliás, no campo de futebol também afloravam um campo de poder entre as famílias e entre as localidades rurais, isso é inegável. A rivalidade do campo é ludicamente representada também pelo contexto local. Em outras palavras, a rivalidade entre os moradores de distintas localidades rurais se traduzia num espetáculo, em uma disputa de quem tem a maior força econômica, quem tem a melhor escola, a melhor bodega, a melhor igreja, o melhor salão, o melhor campo, a melhor posição social e, claro, quem tem a melhor equipe de futebol de campo no rural. Aí emergem, portanto, relações de jocosidade (zombarias ou brincadeiras) entre jogadores e entre torcidas que vicejam o espetáculo.

A galeria de troféus, medalhas e o quadro de fotos do time ficam expostos no salão da comunidade, símbolo de orgulho e também de distinção social. Aliás, a galeria é a única que permanece viva para atos memoráveis, aqueles que clamam por causos pitorescos da conquista futebolística no passado.

Aos poucos a cultura futebolística de campo no meio rural tem se esvaído. As famílias rurais reduziram o número de filhos – antigamente, entre cinco a oito para dois a três nos dias de hoje. Consequentemente, menos jovens habitam o rural. Não é possível mais formar dois times de futebol de campo numa mesma localidade, mas é claro, há exceções. Os campos de futebol viraram potreiros, os potreiros se transformaram em legítimas lavouras de soja.

Nas localidades rurais em que existem ginásios esportivos, os jovens rurais mantêm os times de futsal, pois não precisam mais de 22 atletas, mas apenas 10 para rolar o futsal no rural. Do futebol ao futsal, do campo para as quadras, das famílias grandes para as famílias diminutas, do maior para o menor. Futebol de campo, hoje, só rola novamente na cidade, numa mescla de jogadores rurais de distintas localidades, estratégia para tornar o time competitivo. O rural perdeu este espetáculo para o urbano.

A única que expande fronteiras, abocanha os campos de futebol, invade os potreiros e até as estradas no rural é a leguminosa, ou seja, a soja. Estamos presenciando um processo de sojificação do rural, uma verdadeira sojificação dos campos de futebol. A mesma que destruiu as taipas é aquela que está acabando com os espaços de sociabilização no rural. São tempos imemoriais que ficam no passado. Daquele passado do Preto e Branco (P&B) para o presente do colorido. O verde dos campos de futebol para o verde da soja. Realmente, os tempos são outros!


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domingo, 17 de agosto de 2014

Campeonato Municipal de Futebol de Campo em Arroio do Tigre 2014 – Unida x Farroupilha



No domingo, 17 de agosto de 2014, ocorreu a sequência do 1º turno do Campeonato Municipal de Futebol de Campo no Estádio Municipal Carlos Ensslin em Arroio do Tigre. Pela série “A”, jogaram Juventude Unida x Farroupilha. 

A partida foi movimentada, porém equilibrada. O time do Farroupilha abriu o placar no 1º tempo com Candinho, numa bola que sobrou dentro da área. A arbitragem teve uma atuação fraca. Não marcou uma penalidade máxima para o time da Unida. Nesta jogada, que passou em branco pela arbitragem, o jogador da Unida lesionou-se. 

Ainda no primeiro tempo, Mateus recebeu uma bola dentro da área, tirou o zagueiro do lance e empatou o jogo. O segundo tempo foi equilibrado, afirmando o empate na partida (1x1). Os goleiros foram pouco exigidos no jogo. Segue fotos da disputa e classificação parcial. 


Classificação parcial – Séria A

1º Juventude Unida – 13 pontos
2º Farroupilha – 10 pontos
3º São Roque – 8 pontos
4º Aimoré – 7 pontos
5º Camangang – 2 pontos

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terça-feira, 12 de agosto de 2014

A tese de doutorado e a adolescência retardada

Escrito por:
sulzba@gmail.com


       Nesses devaneios que me perseguem em dias de redação de tese e tentando conviver com pessoas que me cercam, surgiu a súbita comparação entre essa fase de tesear com a fase da adolescência. Uma fase que parecemos mais um “adolescente retardado” e vou explicar algumas das semelhanças:

Escrever uma tese é isolar-se do mundo, ainda que você participe do mundo social, tente ser (porque não dá pra ser) gentil e atencioso, é impossível restar muito tempo entre outras pessoas sem pensar na bendita tese, nas suas arestas intermináveis e nas questões que ainda nem chegaram para serem resolvidas (do tipo: e se meus dados não forem suficientes para provar a tese? - ok, não vou pensar nisso agora!).

Trata-se de uma fase na qual estamos imersos em um mundinho tão nosso, aparentemente tão medíocre e pequeno para os olhos externos, que qualquer chamado do mundo “exterior”, esse mundo paralelo à tese, é como um telefone chato que toca nas horas inapropriadas (tipo quando você está confortável no banheiro, curtindo seu momento mais íntimo consigo mesmo e alguém bate na porta!). Bom, mas tem outras semelhanças surpreendentes.

A tese nos torna um tipo de adolescente retardado, no sentido de estar atrasado, desconectado, num ritmo particular e, também, no sentido de retardado mesmo, de louco, desconcertado, meio “out”, meio esquizofrênico (sim, pois tenho amigos que dialogam tempo todo com seus autores, fazem autoanálise usando métodos científicos e, claro, eu mesma já troquei cartas com Bourdieu, falei de sobre sentimentalidades bobas e revoltas morais com Nietzsche, enfim...).


Por fim, o que nos salva de antemão é que a adolescência é uma fase. Talvez seja uma metáfora válida para a vida acadêmica. Estar doutorando (ufa, não é ser, condição permanente!), é uma fase (ufa de novo!) da vida acadêmica, por sinal nada fácil de passar, cheia de esquizofrenias (afinal, só a gente acredita de verdade que tem uma tese digna de ser escrita e defendida), cheia de crises (crises são normais, o anormal é estar sem crises), cheia de medos (ai, o que vou fazer depois?) e isso incluí o medo de sair de casa (sim, pois a universidade vira uma quase-casa, o orientador um estereótipo de pai ou mãe, talvez padrasto ou madrasta, conforme o caso), mas é um lugar um tanto seguro e bonitinho, que nos protege do mundão que nos espera ali, logo do lado de fora daquele portão grande. Estar a seis meses da defesa com um relatório de qualificação para revisar reescrever dá um medo a mais, parece que o mundão lá fora fica ainda maior, potente e sinistro, enquanto você se sente, ao contrário, impotente, incapaz e inseguro.

Sinceramente... Acho que os programas de pós-graduação deveriam incluir psicólogos nas suas equipes de secretaria. Sobretudo um psicanalista (imagine, a cada ruptura, uma inspiração para a tese!!). Acho que seria o profissional que mais receberia “agradecimentos” ou “dedicatórias” (ahahaha).

Mas, enfim, a vida segue e essa fase também passará. Assim esperamos!
E enquanto estivermos imersa nela, ela terá todo dia seu prazer, suas dores e agonias. E, por incrível que pareça, até isso é preciso viver com intensidade, faz parte da nossa jornada rumo a um punhado a mais de maturidade (se não for científica, que seja, ao menos, pessoal).
Ah, sim, uma pitada de bom humor, nessas longas horas, sempre ajuda. ;)

Um abraço solidário para quem tá no mesmo barco,
Aline

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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Não magoe uma pessoa de origem rural

Ezequiel Redin

Nos tempos hodiernos é pouco comum ouvir alguém se auto identificando como “colono”, como “agricultor”, como “jovem rural”, como “gente da roça” ou como “gente das grotas”. Esses adjetivos remetem à um passado recente que não é bem lembrado, muito estigmatizado, de um modo de vida camponês considerado arcaico, de resquícios negativos à psique humana dos atores rurais, resultado de um feixe de chacotas, piadas, risadas e gargalhadas pelo jeito truncado do jovem rural [ou agricultor(a)] ao andar, caminhar, se vestir e falar.

Atualmente, o intenso processo de globalização, a emergente entrada da comunicação rural, o avanço tecnológico no campo e seu acesso tem potencializado com que muitas famílias rurais tenham condições econômicas mais avantajadas que um certo percentual de famílias urbanas. O rural tem emergido, famílias já dispõem de 2 ou 3 celulares, computador ou notebooks e internet, trator novo, carro do ano (às vezes, dois), moto, caminhão, colheitadeira, uma requintada casa no rural, uma propriedade modernizada, local em que até as taipas foram retiradas em detrimento das cercas (de arame farpado ou liso, tábuas, pvc, ferro ou algum arquétipo de metal), entre outras inovações. 

A moda também chegou ao campo. O rural tem se adequado a cultura do pertencimento, seguindo veemente as orientações da sociedade moderna, o rural não é mais atrasado como antigamente e tem sido constantemente metamorfoseado. Do símbolo de atraso ao símbolo da ostentação da modernidade, da eficácia econômica e da pujança agropecuária.


Em alguns locais mais desenvolvidos, o jovem rural que deixou a terra para tentar a vida no urbano tem voltado para continuar as atividades na agricultura. As estatísticas desse retorno são desprezíveis no quesito demografia rural, pois pouco acenam o retorno do jovem rural. Ademais, existem municípios em que as moças da cidade estão procurando jovens rurais para relacionamentos e também futuros casamentos, um verdadeiro processo contrário de migração [urbano-rural]. 

Estamos vivendo outros tempos, tempos em que o rural ganhou força social, também tem emergido constantes movimentos rurais organizados, como é o caso das associações de jovens rurais, das trabalhadoras rurais, dos grupos da melhor idade rural, das festas gastronômicas no rural, etc. O rural tem genuinamente mostrado sua garra, potencializando suas tradições (identidade positiva), a natureza, os produtos, suas festas, revigorando a sua autenticidade, sua marca positivada de êxito e de suas condições de urbanidade. 

        Portanto, retornando ao título desse texto, não magoe uma pessoa de origem rural. Não a chame de colono em hipótese alguma, isso é constrangedor, fato de alta rejeição, de uma subversão recente a um contexto histórico negativo. Não alimente um passado que ficou para trás. Não reforce o estigma. Um colono pode chamar o outro de colono, um jovem rural pode chamar outro de guri da roça, pois eles têm uma identidade em comum, não serão feridos, pois tem o mesmo cordão umbilical, são pessoas do próprio meio, ou seja, são da mesma casa, interagem entre eles. 

        Entretanto, uma pessoa genuinamente urbana (externa a esse meio) quando usar essas expressões, resignará do mais efêmero remorso e ativará uma rejeição profunda nas pessoas rurais, resultado de seu pensamento colonialista, de sua racionalidade dominante, sua tentativa de minimizar o outrem. Não alimente esse passado caricaturado. E fecho esse texto usando as palavras de Teixeirinha na música “O Colono”: “Não ri seu moço daquele colono... Ele é digno do nosso respeito... De sol a sol vive trabalhando... Pra ti alimentar, na roça está lutando”. Aprecie a lida rural, ouça causos dos agricultores e lembre-se: não magoe uma pessoa de origem rural.  

Para baixar este texto no formato PDF clique aqui.
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Texto posteriormente publicado dia 08 de Agosto de 2014 no Jornal Gazeta da Serra. Para visualizá-lo direcione-se à página 22/56, clicando aqui.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

XIII Festival Artístico e Cultural da Juventude Rural

Foto: AREJUR
O XIII Festival Artístico e Cultural da Juventude Rural, organizada pela AREJUR - Associação Regional de Juventude Rural, será realizada no dia 12 de Julho de 2014, às 9:00 horas, no CTG Porteira da Amizade em Lagoão. O evento tem por objetivo promover ações que fortaleçam a formação profissional, cultural, social e artística da juventude rural, por meio da integração dos jovens participantes da AREJUR - Associação Regional de Juventude Rural.

O evento é promovido pela Associação da Juventude Rural de Lagoão (AJURAL) com apoio da AREJUR, Prefeitura Municipal de Lagoão, Emater e Governo do Estado do Rio Grande do Sul.
  

Programação
8h30min
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Recepção e Credenciamento
9h
-
Abertura oficial

9h30min
-



Palestra: “JUVENTUDE RURAL EM AÇÃO: EXPERIÊNCIAS E PERSPECTIVAS” ministrada por Ezequiel Redin (Doutorando em Extensão Rural – PPGExR/UFSM) e Paulo Silveira (Professor assistente do Departamento de Educação Agrícola e Extensão Rural da UFSM).

10h30min
-
Circuito Agrícola
12h
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Almoço
13h30min
-
 Apresentação do grupo de teatro de Candelária com a peça: “DIA A DIA DA FAMÍLIA CAFUNDÓ”

14h
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 Apresentação das Peças Teatrais

15h
-
 Apresentação Musical

17h30min
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 Premiação e Encerramento

Fotos do dia
Copyright © Ezequiel Redin






segunda-feira, 7 de julho de 2014

24º Seminário Estadual e 6º interestadual de alternativas à cultura do fumo

O município de Arroio do Tigre é o maior produtor sul brasileiro de fumo tipo Burley e, segundo dados da Afubra (2010), o local caracteriza-se por uma agricultura de base familiar, congregando 2.610 famílias produtoras de tabaco, atingindo 90% das propriedades rurais do município, sendo que a cultura do tabaco representa 57% do valor produzido na propriedade. Além disso, destaca-se na produção de soja, milho e feijão, além da suinocultura, da atividade de leiteira e da piscicultura, que complementam o universo das propriedades, sem calcular os produtos para o autoconsumo da família que são diversos (REDIN, 2011).



Nesse contexto, Arroio do Tigre sedia o 24º Seminário Estadual e 6º interestadual de alternativas à cultura do fumo no dia 20 de Agosto de 2014. O tema desta edição é “Agricultor/a Produzirás o Alimento? Como? Para quem?” e o lema deste encontro é: “Trabalho, Organização e Produção: menos fome na população”.

O evento é promovido em parceria entre a Paróquia Sagrada da Família e Prefeitura Municipal de Arroio do Tigre, AMCSERRA, Projeto Esperança/Cooesperança e Arquidiocese de Santa Maria, Diocese de Cachoeira do Sul, Diocese de Santa Cruz do Sul, Diocese de Cruz Alta, Diocese de Santo Ângelo, Cáritas Brasileira e Comissão Pastoral da Terra – CPT/RS.

Programação
7h30 – Acolhida e café colonial
8h30 – Mística e celebração da cidadania
Resgate histórico dos 23 Seminários (SCS, CPT)

Palestra sobre o tema e o lema
Frei Sérgio Gorgen – Análise da conjuntura
Dinarte Belato (Unijuí) – Continuidade da família rural
Ezequiel Redin (PPGExR/UFSM) – O jovem estudante na agricultura
Dejalma Cremonese (UFSM) – Otimismo do trabalhador na terra
Gilmar Rogério Wendel (ULBRA) – Biomedicina na Agricultura

12h – Almoço de confraternização e manifestação cultural
13h – Atividades Culturais e Exposição de Alternativas
13h – Coletiva de Imprensa
13h30 – Mesa das Experiências – Alternativas à Cultura do fumo
1) Arroio do Tigre 2) Santa Cruz do Sul 3) Santa Maria 4) Cachoeira do Sul 5) Santo Ângelo 6) Cruz Alta

14h – IRGA – Pesquisa de Alimentos; Agroindústrias; Soluções
Pastoral da Saúde: Medicina Vegetal e Alternativas
15h – Debate e Fila do Povo
15h30 – Leitura da Carta do 24º Seminário e escolha da data e local do próximo Seminário (25 anos – Jubileu) – 2015
16h – Mística de encerramento



Capa do Folder

Programação completa do Seminário


Referências
REDIN, E. Potencialidades agrícolas:Arroio do Tigre em cena. Geografia. Ensino & Pesquisa (UFSM), v. 15, p. 227-241, 2011.

sábado, 5 de julho de 2014

│Resenha │ Livro: 6Ds

O livro “6Ds – As seis disciplinas que transformam educação em resultados para o negócio” de autoria de Calhoun Wick, Roy Pollock e Andrew Jefferson é uma miscigenação entre a pesquisa e prática empresarial cotidiana – um misto entre a teoria e a aplicação empreendedora. A obra publicada em 2011 pela Editora Évora conta com 384 páginas, sendo uma construção intelectual que trata sobre seis grandes temas: resultados para o negócio, desenho de experiências, aplicabilidade, transferência do saber, apoio à performance e a sistematização de resultados. O grande mote dos negócios que o livro desvenda é a aprendizagem como o caminho a ser percorrido para conquistar o sucesso empresarial.

Foto: Capa do Livro 6Ds - Editora Évora


Escrito pelo punho de três grandes escritores na área de negócios estratégicos:

1) Calhoun Wick é um empresário reconhecido nos Estados Unidos por sua atuação na maximização de desempenho de pessoas e organizações, tendo sido nomeado “Líder Pensante do Ano” pela ISA – Associação de Provedores do Aprendizagem – em 2006. Em 2007, recebeu o primeiro Neon Elephant Award.
2) Roy Pollock é diretor de aprendizagem da Fort Hill Company, e palestrante.
3) Andrew Jefferson é um empresário de excelência, focado na área de planejamento, marketing e vendas, CEO da Fort Hill Company.

A obra, sem dúvida, é uma cartilha, um manual, um guia empreendedor para gestão de negócios. Traz regras, fórmulas de gestão e princípios básicos para que a educação se converta em resultados econômicos positivos para a organização. E o elo central são as pessoas. Foi preciso de muita experiência e cases de sucesso para provar que as pessoas são o seio central das organizações. Os autores revelam que eles próprios foram convencidos de que o treinamento corporativo e programas de desenvolvimento são duas armas importantes para obter resultados salientes.  E, hoje, insights inovadores nas organizações envolvem pessoas, capacitações, treinamentos e desenvolvimento coorporativo. Em outras palavras, potencializar os pontos fortes e suplantar os pontos fracos.

O livro se comporta como um manual, um passo a passo demarcado, como desponta no próprio título. Na introdução os autores já revelam que cada uma começa com “D” para ser mais “fácil de lembrá-las e aplicá-la” com único propósito: maximizar resultados. Adiante, faremos uma pequena abstração pessoal do que os autores trabalham sobre cada disciplina.

D1 – Determinar os resultados para o negócio
O capital humano é visto como o principal fator de competividade. Na verdade, o que os autores colocam aqui é a criação de expectativas para que o colaborador perceba que pode apreender e crescer no local de trabalho. A educação corporativa dos funcionários busca um proposito comercial. Em minha opinião, os autores poderiam transcrever isso em forma de “paixão” e “amor” à profissão. Colaborador desanimado e desmotivado não significa que ele joga contra a empresa, mas a empresa que não lhe dá oportunidades para que ele exerça com máxima eficiência suas capacidades.
O treinamento exige clareza no objetivo empresarial, as metas são circunstanciais, o programa de lideranças é necessário, um programa de aprendizado deve ser pensado calculadamente e, assim, sucessivamente. A primeira disciplina é apresentada no livro como uma ação normativa – em outras palavras, siga os meus passos e você será feliz empresarialmente. Tenho certa aversão a ações normativas, mas não há de se negar que os autores usam de bons argumentos e justificam a todo o momento o motivo porque os colocam como necessários.

D2 – Desenhar uma experiência completa
Converter o aprendizado em resultados empresariais é um processo, o que acontece antes e depois do treinamento pessoal é mais importante quanto o próprio treinamento. A experiência completa se concretiza quando o treinamento e o desenvolvimento se revertam em resultados e expertise para a organização. Wick, Pollock e Jefferson, autores desta obra, focam nas fases do aprendizado (preparação, aprendizado, transferência e realização). Compreendem como primordiais para aumentar o nível de performance da organização. As expectativas dos participantes sobre um mesmo programa com diferentes pessoas impactam diretamente na percepção e na motivação para sua posterior aplicação (um tem alta motivação e ótima avaliação, outro tem baixa expectativa sobre o curso e baixa avaliação sobre sua aplicabilidade). Em minha opinião, não acredito ser assim tão linear, pois entre as perspectivas e as expectativas são pontos altamente convergentes e divergentes, com anseios e interesses a flor da pele. Do mais pessimista, pode-se angariar um ótimo colaborador e aplicador dos princípios do curso, enquanto de um bom otimista nada pode resultar. Portanto, a linearidade aplicada pelos autores pode, absolutamente, ser contestada.

D3 – Direcionar a aplicação
Os participantes de programas de alto impacto precisam fazer de forma diferente e melhor, ou seja, fazer o que aprendeu de forma inovadora. O desafio é encontrar uma sinergia entre o que aprendeu e a sua aplicação no trabalho. Isto está diretamente relacionado a motivação dos colaboradores e sua possibilidade de aumentar a recompensa salarial, após uma ação louvável, o que em minha opinião, é muito pouco reconhecida nas empresas. Acionar o aprendizado dos participantes é, sem dúvida, diretamente relacionado com o grau de corresponsabilidade e reciprocidade entre colaborador e empresa.

D4 – Definir a transferência
Transferir o aprendizado para o negócio é uma fase circunstancial para as estratégias empresariais. Os autores pontuam nesse momento aspectos psicológicos e culturais sobre o comportamento humano e sobre sua racionalidade. O capítulo traz uma de série de exemplos, formas e métodos para maximizar os modos de transferir o conhecimento e aplicá-lo. Nesse momento, os autores me surpreenderam por esmiuçar detalhadamente a complexidade da conduta humana e demonstrar sobre as mais diversas perspectivas de atribuir resultados eficazes com essa harmonia entre o aprender e o aplicar.

D5 – Dar apoio a performance
Materiais, sistemas e pessoas são o tripé de apoio para o equilíbrio, atribuição de responsabilidades e suporte as novas demandas. Para aumentar a performance várias técnicas  de aprendizagem colaborativa são utilizadas, desde os métodos mais tradicionais até as redes sociais. Foco no conteúdo, na colaboração, coaching, apoio do supervisor e da alta gestão.

D6 – Documentar os resultados
Resultados positivos precisam ser registrados, catalogados e replicados, enquanto os negativos, talvez, repensados, adiados ou descartados. Isso tudo serve de apoio para um futuro planejamento empresarial, sobre novos cursos, sobre novas estratégias de negócio, sobre novas diretrizes. São indicadores para melhorias, fonte de dados para comparação e para uma possível refutação de estratégias de negócio.


A obra foca-se na crença de que habilidades podem ser apreendidas, e o sucesso empresarial depende da prática incansável, persistente, dedicada e deliberada – o uso completo de disciplina. Ensino e instrução como forma de apreender, aprimorar e disseminar. Aprendizagem é constante e, nas palavras dos autores, uma jornada de uma vida para transformar cada experiência em uma oportunidade de crescimento. Para finalizar, esta obra me surpreendeu, pois sou um avesso a manuais, mas posso ressaltar que o livro vai além de um manual simples e descritivo, ele preenche as lacunas mais complexas do saber, da aprendizagem e de sua aplicação na vida cotidiana do trabalho. Sem dúvida, para os mais atinentes críticos, essa obra merece uma apreciação detalhada. Não tenho dúvidas que, de uma forma ou outra, ela ampliará sua percepção sobre os programas de aprendizagem e desenvolvimento. 

Para aquisição do livro, acesse a Editora Évora clicando aqui

quarta-feira, 11 de junho de 2014

A experiência de viver na Holanda: o olhar de uma brasileira

Escrito por:
Drª em Desenvolvimento Rural (PGDR/UFRGS)
chaianeagne@gmail.com

A minha experiência na Holanda teve início em Janeiro de 2013 quando fui morar em Wageningen, cidade pequena, localizada no centro do país. No período de seis meses, pude não só viver e aprender uma cultura diferente como também aprofundar meus estudos no grupo de sociologia rural, na Universidade de Wageningen. Logo no primeiro dia que me apresentei no departamento de imigração da Universidade, recebi um livro: The Holland Handbook. A secretária do departamento sugeriu-me, fortemente, que eu fizesse a leitura do tal livro e que eu me matriculasse numa espécie de “mini-curso”, pois estes seriam meus principais guias para entender os hábitos e os costumes do Holandês (Dutch). Porém, a vivência do dia-a-dia foi o melhor aprendizado.

Talvez o termo mais emblemático que define o comportamento Dutch seja o “do by yourself” (faça você mesmo). Sobre isso, acredito que a situação que mais exemplifica essa expressão aconteceu horas antes de um voo com destino a Roma. Todo o processo de checking das bagagens era feito pelos próprios passageiros, e isso incluiu a pesagem, a colagem dos códigos de barras, e a colocação destas na esteira. Fiquei observando os passageiros na minha frente e lendo as instruções que apareciam nos monitores. Enfim, nada muito difícil quando se tem todas as informações claras e minimamente explicadas. Aliás, esta é outra característica do comportamento Holandês. Os manuais - quase sempre -, não requerem qualquer explicação adicional. 

Nas primeiras semanas, a minha adaptação ao almoço “sanduíche” foi um dos principais desafios da alimentação. Arroz, feijão, carne, - produtos típicos de um almoço brasileiro - não combinam com o costume Holandês. Pela manhã, antes de sair para o trabalho, eles já preparam os seus sanduíches do “almoço”: pão (você tem uma infinidade de opções nos supermercados) queijo e demais complementos: salames, mortadelas, presuntos e etc. No sanduíche, você pode incluir uma saladinha também: tomate, alface, pepino. No entanto, até onde eu pude perceber os sanduíches “mais elaborados” ficam para o final de semana, já que as pessoas têm mais tempo para preparar as refeições. Nesses dias, é comum adicionar ovos cozidos. E, não estranhe caso você observar que os Holandeses bebem leite no almoço, pois é comum beber leite com o sanduíche. Inclusive o leite e seus derivados (principalmente queijos e iogurtes) são os principais produtos da alimentação Holandesa. 

Através da minha experiência em viver com uma família holandesa foi possível aprender outros aspectos que marcam o comportamento “Dutch”. Uma das coisas mais estranhas referiu-se ao fato que a campainha da porta não tocava inesperadamente. As visitas aconteciam com datas e horários definidos e combinados entre as pessoas envolvidas. Mesmo nos casos das visitas dos filhos ou dos amigos muito próximos. Além disso, ao agendar a visita, as pessoas têm hora marcada, tanto para entrar quanto para sair de lá! E isso vale para todos os demais eventos sociais. 

Pude perceber também que o holandês é muito organizado, eles programam quase todas as tarefas do dia, da semana e do mês seguinte. Quando você está a caminho da estação, dentro de um ônibus urbano, é possível visualizar todas as opções de trens e destinos, com horários e stops definidos. E, tais horários são seguidos à risca, ou seja, 1 minuto por lá já é considerado um atraso! Em outras palavras, você pode perder o ônibus ou o trem em segundos! 

No inverno, você não vê muitas pessoas na rua, exceto nos horários em que elas estão se deslocando para o trabalho ou para um compromisso. Nessa estação, são raros os dias de sol e a noite chega muito cedo: por volta das 16 horas. Assim, as pessoas passam muito tempo nos seus lares. Um vizinho, por exemplo, eu o conheci depois de três meses, quando a primavera já estava chegando. A primavera traz as flores e os dias de sol, que são muito valorizados por eles (ficar em casa em dias ensolarados é incompreensível para qualquer Holandês!). Também, é nessa época do ano que os jardins modificam-se: os holandeses cuidam das flores, das plantas e reservam as noites de sábado ou as tardes de domingo para o barbecue: o churrasco estilo americano. O jardim vazio cede lugar às mesas, às churrasqueiras e às velas. Aliás, eles adoram tanto velas que ascendem as velinhas por toda a casa: na mesa da cozinha, na mesa da sala, no quarto, no banheiro...

À esquerda: o inverno de Wageningen. À direita: museu histórico de Leiden, na Holanda. 

Na academia, por exemplo, ao contrário do Brasil, a maioria das pessoas usam roupas “normais”, de cor neutra e que, aqui, a gente usaria facilmente para dormir ou ficar em casa. Uma das minhas grandes surpresas foi a tentativa frustrada de encontrar uma caneleira para malhar o glúteo. É que lá as mulheres não malham esta parte do corpo, já que a atividade física preferencial é a aeróbica, sobretudo a bike: que é a “marca registrada” da Holanda. No que se refere à bike, por exemplo, o seu uso inclui também, pedalar em tempos de neve intensa e com chuva. Ademais, caso você seja um sujeito que não saiba andar de bicicleta você será considerado um “ser anormal” para qualquer Holandês. 

Não é difícil entender porque qualquer holandês é um expert em andar de bicicleta. O primeiro contato com uma bike começa ainda quando se é um bebê. Quase todas as famílias Dutch possuem uma bike com uma cadeirinha de transporte ou uma espécie de “reboque” pequeno, que é acoplada na bicicleta. Esse “reboque” é usado tanto para transportar crianças quanto animais. Os animais, especialmente gatos e cachorros não são vistos nas ruas. Sempre quando os vi, eles estavam acompanhados dos seus donos. 

Em geral, quando as crianças têm 3 anos, elas já possuem a sua própria bike. Primeiro, podem experimentar bikes que testam o equilíbrio. Depois disso, vi alguns pais empurrando os filhos com uma das mãos, enquanto a outra era utilizada para “guiar” a sua própria bicicleta. Sim, muitos deles usam apenas uma das mãos ou nenhuma, enquanto checam e-mails e atendem celulares. É comum, ainda, as mulheres utilizarem esse meio de transporte para ir a eventos mais sofisticados. O salto alto ou a roupa “de festa” não impedem o uso da bicicleta, ao contrário, se você estiver usando-a nessas condições, isso prova que você é, de fato, um Holandês. 

As leis do trânsito, por exemplo, ao contrário do Brasil são componentes obrigatórios de ensino, ainda nos primeiros anos escolares. Mesmo que você nunca seja um motorista de carro ou moto! Andar de bike, por exemplo, requer entender algumas regras básicas: usar a via e sentido destinados para tal, obedecer a preferência, cuidar os pedestres, obedecer aos sinais de trânsito (isso inclui também obedecer a sinaleira específica para as bikes) e indicar a direção quando se quer mudar de via, convergir e/ou estacionar a sua bicicleta.
À esquerda: estação de trem em Maastricht, cidade ao sul do país, à direita: Bicicleta estacionada em um canal, em Amsterdã, capital da Holanda. 

Enfim, essas situações retratam um pouco das minhas impressões de viver num país tão diferente do Brasil. Concluí que aprender sobre uma cultura requer vivê-la, tentando não fazer qualquer julgamento (certo/errado; melhor/pior). Isso significa estar disposto a experimentar desde o peixe cru que eles adoram (o Haring) até obedecer às regras e aos horários. Apesar disso, tenha certeza que muitos elementos do comportamento Dutch ainda vão parecer estranhos aos olhos de um brasileiro. Essa “estranheza” é o principal objeto de transformação das nossas próprias ideias, das nossas atitudes e nas nossas maneiras de ver o mundo.

Dica de Leitura:
Para saber mais sobre viagens para a Holanda, acesse o Blog Viagens: dicas e experiências.

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