domingo, 4 de setembro de 2016

Apresentação do v. 23, n. 2, abr./jun. 2016 da Revista Extensão Rural



Por ─ €zeqµiel ®edin

Ao longo deste ano letivo de 2016, a equipe da Revista Extensão Rural tem trabalhado permanentemente. Aos poucos, nosso trabalho árduo tem apresentados avanços consideráveis, como aumento substantivo do QUALIS e o acréscimo de áreas avaliadas pela CAPES. Existe uma grande ambiguidade entre o crescer e o permanecer estável. Enquanto a estabilidade demanda uma constância dos afazeres científicos, o crescimento provoca uma ruptura do tradicional, nossos avanços demandam maior número de trabalhos submetidos, maior número de pareceristas, maior trabalho físico e intelectual por parte da comissão editorial, maior trabalho dos editores e da bolsista. Escolhemos seguir esse caminho que desafia nossos próprios limites e o nosso próprio fôlego em detrimento da valorização dessa publicação científica de referência nacional e também internacional.

Nossa escolha é em detrimento de um projeto ambicioso de fazer da revista Extensão Rural (Santa Maria) um dos principais veículos de comunicação e divulgação científica do mundo. Nosso trabalho enfrenta grandes desafios como, em especial, a carência de recursos para impressão de nossas revistas e os editores trabalhando de forma voluntária, sem nenhum intento financeiro. Tudo em prol de um projeto, por acreditar que a Revista deve angariar graus de qualidade de forma crescente. Por isso, os graus de exigência na seleção de artigos têm aumentado consideravelmente. Desse modo, solicitamos a compreensão dos autores sobre nossas exigências, porque é preciso avançar e para avançar é preciso aumentar as exigências sobre os trabalhos que realmente avancem na fronteira do conhecimento. 

Para continuar crescendo, contamos com a parceria de toda comunidade cientifica. Nossa gratidão a todos vocês que fazem da revista Extensão Rural (Santa Maria) uma publicação científica com alto valor agregado. É claro que não estamos satisfeitos. Embora, consideramos nosso excelente avanço qualitativo, estamos trabalhando para que a revista galgue espaços nos rumos da política de Extensão Rural no Brasil. E, nesta edição, novamente trazemos a tona artigos com pesquisas que refletem sobre esta importante área do conhecimento.

Portanto, informamos que está disponível a edição 2016-2 da Extensão Rural (Santa Maria).

Nesta edição, a revista oferece sete artigos. Os três primeiros trabalhos representam o avanço na temática da Extensão Rural deste periódico, com a abrangência de temas tão caros a Extensão Rural originárias de reflexões de exímios pesquisadores brasileiros que contribuíram para um belo avanço nas publicações sobre a Extensão Rural. Consolidam a qualidade deste número, os investigadores que apresentam grandes pesquisas que atravessam os limites geográficos de nosso país – do nordeste ao sul do Brasil– trazem reflexões sobre identidade dos assentados, sobre a escola urbanizada, e o perfil de produtos de pinha e dos fruticultores da Bahia.

Para abrir o primeiro número da Extensão Rural, apresentamos o artigo dos extensionistas Thacya Clédina da Silva e Francisco Roberto Caporal. Os autores têm por objetivo analisar as contribuições da Lei nº 12.188/2010 para a agricultura familiar em Alagoas, tomando como base as Chamadas Públicas de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER), lançadas pelo Departamento de Assistência Técnica e Extensão Rural (DATER), da Secretaria de Agricultura Familiar (SAF) do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) para o Estado, entre os anos de 2010 a 2014. Este trabalho ratifica que através das Chamadas Públicas, foi atendido apenas 4% do universo da agricultura familiar, e que as promessas dos gestores públicos, que seriam de desburocratização e de continuidade do serviço com a implementação da Lei, não se efetivaram no estado de Alagoas, concluem os autores.

Na sequência, Renata Rauta Petarly e Welison Portugal de Souza descrevem a Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) em uma cooperativa agropecuária e realçam o perfil dos profissionais por ela responsáveis, além de abordar a complexidade da atividade extensionistas e dos aspectos associativos e empresariais na gestão cooperativa. Entre as várias reflexões, os autores chamam a atenção para a definição de uma ATER Cooperativa que integra atividades voltadas para oferecer orientações aos cooperados e também com ações de educação cooperativista que promovam a participação social e econômica dos cooperados, contribuindo para uma mais eficiente articulação socioeconômica, finalizam os investigadores.

O terceiro artigo é assinado por um conjunto de pesquisadores, orientados pela figura de Gerlúcio Moura Bezerra de Sousa. A pesquisa trata de conhecer e descrever ações de assistência técnica e extensão rural voltadas para mulheres, envolvendo a atuação do IPA junto à Associação Municipal Mulher Flor do Campo. Os resultados apontam que a instituição de extensão rural auxiliou na inclusão de suas famílias em programas governamentais, o incentivo às atividades não agrícolas e a qualificação técnica do grupo de mulheres do campo.

O quarto trabalho é escrito por Magdalen Julie Marques Machado Caetano e Nara Rejane Zamberlan dos Santos. O artigo buscou caracterizar os atores envolvidos na ocupação do Assentamento Itaguaçú, São Gabriel, Rio Grande do Sul. As autoras defendem a necessidade de participação da Extensão Rural em assentamentos com atuação interdisciplinar, dada às diferenças nas necessidades e anseios desta população, pois o somatório de condicionantes como a falta de infraestrutura e desconhecimento técnico pode implicar, futuramente, e de forma negativa, na realidade do local, concluem as investigadoras.

Em seguida, o quinto artigo é assinado por Laila Mayara Drebes e colaboradores, fruto de uma investigação do programa de formação de professores para a educação profissional da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). O trabalho analisou incoerências sociais e culturais entre saberes escolares e familiares sobre as perspectivas profissionais de estudantes rurais de Ensino Médio através das percepções de professores e estudantes no município de Tio Hugo no estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Entre as várias reflexões, os autores postam que existe um hiato entre discurso e prática docente sobre a concepção de escola, sendo que os professores não incrementam o meio rural e a agricultura em suas aulas, nem mesmo em momentos interdisciplinares. Por outro lado, os discentes rurais gostariam dessa integração, se sentem desmotivados e sonham com cursos técnicos agropecuários e graduações nas ciências agrárias. A escola de Ensino Médio reproduz a realidade sociocultural dominante e transmite saberes urbanizados que incentivam os estudantes rurais a perspectivas profissionais urbanas, concluem a equipe de investigadores.

O sexto artigo, escrito por Alessandro da Silva Oliveira e colaboradores, objetivou caracterizar o perfil do sistema de produção de pinha e os aspectos fitossanitários da cultura dos produtores de pinha de Anagé, Livramento de Nossa Senhora e Presidente Dutra, Bahia. O trabalho revelou que a cultura está estabelecida em pequenas áreas, os produtores possuem idade acima de 41 anos, baixo nível de escolaridade, com inexpressiva participação em associações e baixo nível tecnológico, ressaltam os autores.

O último artigo que finaliza esta edição é elaborado por Suzany Aguiar Leite e colaboradores. O objetivo da pesquisa foi realizar um diagnóstico sobre aspectos da produção de banana, manga e maracujá, voltados ao perfil do produtor, da propriedade e do uso de agrotóxicos, devolução de embalagens vazias e descarte de resíduos. Após intenso trabalho de campo, com aplicação de 610 questionários, foi constatado que as faixas etárias predominantes são dos fruticultores acima de 41 anos e os produtores de maracujá os mais jovens. Os fruticultores apresentam baixo grau de escolaridade, o que dificulta a compreensão do uso dos agrotóxicos de forma correta e a maioria proprietário da terra sem residir na mesma, além da maioria das áreas cultivadas está na faixa de 1 a 5 hectares, concluem os autores. Esse artigo fecha o segundo número da Revista Extensão Rural em 2016.

Desejamos a todos uma boa leitura e grandes reflexões para futuras pesquisas!

Agradecemos seu interesse e apoio contínuo em nosso trabalho, desejando que continuem a divulgação e a indicação do periódico Extensão Rural em suas instituições e redes de cooperação acadêmica, visando torná-la cada vez mais um periódico visível e de utilidade pública no Brasil e no exterior.

Em 2016 são quatro edições para comemorar vinte três anos de publicações científicas. Faça parte desta história. Envie sua contribuição científica. Acesse nosso portal:

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O Periódico Extensão Rural (Santa Maria) agradece a todos os autores, pareceristas, leitores e parceiros que contribuem inestimavelmente para a qualidade de nossa publicação científica.




│Da série: 23 ‪#‎ANOS da Extensão Rural │Revista Extensão Rural – abr./jun. 2016.


📖 Extensão Rural (Santa Maria) – um periódico científico do Departamento de Educação Agrícola e Extensão Rural (DEAER) do Centro de Ciências Rurais (CCR) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

📢Revista Extensão Rural  abr./jun. 2016. Para baixar a revista completa, clique aqui

Sumário
Thacya Clédina da Silva, Francisco Roberto Caporal
                             
Renata Rauta Petarly, Welison Portugal de Souza

Gerlúcio Moura Bezerra de Sousa, Filipe Augusto Xavier Lima, Letícia Paludo Vargas, Tito Antonio Ferraz Jota, Darlyton Fernandes Lopes da Silva

Magdalen Julie Marques Machado Caetano, Nara Rejane Zamberlan dos Santos

Laila Mayara Drebes, Edilacir dos Santos Larruscain, Luiz Felipe Schuch, Bartholomeo Oliveira Barcelos

Alessandro da Silva Oliveira, Maria Aparecida Castellani, Antonio Souza do Nascimento, Aldenise Alves Moreira

Suzany Aguiar Leite, Maria Aparecida Castellani, Ana Elizabete Lopes Ribeiro, Aldenise Alves Moreira, Weber Marcilio Malheiro Aguiar  



Revista Extensão Rural (Santa Maria)
ISSN impresso: 1415-7802
ISSN on-line: 2318-1796

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Da escravidão à liberdade relativa – a desigualdade e os sentimentos de inferioridade social em Django livre




Django Livre (2012), estrelado por Jamie Foxx, não é apenas um filme classificado sobre lógica simplista de gênero faroeste ou de cinema western; não é nem mesmo um filme de ação ou de guerra através do enredo da libertação de um escravo para tornar-se um caçador de recompensas. Um filme que inicia com cenas fortes que chocam um público mais sensível a condição de igualdade entre as pessoas e também, muito em voga, a igualdade racial posiciona-se como uma forte retomada da condição de inferioridade dos negros na época colonial. Portanto, o filme Django livre, disponível no Netflix Brasil, é uma produção cinematográfica que, apesar do avanço do capitalismo, choca as pessoas mais sensíveis ou ligadas à concepção humanista do desenvolvimento. O desenrolar da história convoca o público a relembrar as condições desumanas da escravidão em que os negros foram tratados como animais para o trabalho. 

A escravidão tem demonstrado o lado mais cruel da dominância social, da ganância e da estabilidade das casas grandes e suas famílias com sobrenome afincado na esfera simbólica do poder, aliada as suas posse e riquezas materiais. Para tal, usam as pessoas como instrumento para a diferenciação social. A riqueza, nessa lógica, é na sua compreensão mais utilitária da sociedade. Nesse sentido, este comentário apresenta dois argumentos herméticos e contemporâneos. O primeiro refere-se a questão da liberdade relativa em uma sociedade colonial, patriarcal e branca que não aceita o negro e que revela sentimentos de desprezo e inferioridade social. O segundo argumento refere-se a relação entre o racismo apresentado na produção audiovisual, em outro momento histórico, mas que resgata esse debate, mesmo consciente de que não é seu propósito principal, para evidenciar os resquícios de uma escravidão que a sociedade elitizada ignora, com a defesa quase que religiosa da meritocracia. 

A produção cinematográfica revela o personagem Django, um escravo que ganha poder por intermédio de um homem branco, o caçador de recompensas alemão Dr. King Schultz, interpretado por Christoph Waltz. Django, o escravo, é comprado para que possa indicar as pessoas que Schultz queria capturar, vivos ou mortos. Nessa empreitada, após realizado o plano, Django ganha sua liberdade, porém eles optam por seguir o mesmo caminho, ou seja, unem-se como matadores de recompensas e viajam na procura dos criminosos mais perigosos do sul dos Estados Unidos. 

No desenrolar da história, Schultz, o homem branco, com poder legitimado pela lei, os documentos escritos – o papel como maior fonte de respeito – legitima o Django (o negro) na sociedade conservadora da época. Apesar do constante repúdio ao negro, o homem branco usa de toda a sua retórica para legitimar Django como um negro liberto. Apesar da liberdade de Django do trabalho, a sociedade majorital não o aceita como igual perante a classe oligárquica. 

O filme traz, em especial, uma reflexão marginal sobre o desprezo do negro, em abordagem mais contemporânea, o racismo incrustrado na sociedade da época. O ato de desprezar uma pessoa pela cor, legitimado pela dominância das famílias brancas e ricas, a forma de usá-las como instrumento de trabalho para acumulação de bens e serviços é o ponto estrondoso da relação entre homem-homem. Para Django ter autonomia, ou seja, sair da condição de escravo (mesmo que liberto) para a condição de igualdade com o homem branco era necessário muita retórica e legitimação do seu parceiro. Também teve que se sujeitar a aceitar um trabalho de matador de recompensas como única alternativa à sobrevivência. Portanto, a liberdade de Django não era uma liberdade totalitária, era uma espécie de único caminho para evitar a condição marginal em que se encontrava. 

O filme revela os piores sentimentos da ação humana como a raiva, o desprezo, a humilhação e o apartheid social. Nesse sentido, o filme propõe-se fazer uma encenação sobre uma história de enfrentamento com os homens do poder, porém, não deixa de fazer com que o público reflita a realidade de uma sociedade que possuía resquícios de um era colonial conservadora. 

Os barões da riqueza, geralmente, brancos tem estabelecido uma cultura que têm durado muitos séculos. Fazendo um paralelo com a vida real, atualmente, o debate contemporâneo no Brasil ainda tenta superar esse apartheid social em relação ao negro, como é perceptível a grande polêmica que é o sistema de cotas para os afrodescendentes. Os mais radicais questionam as cotas porque defendem ardilosamente o sistema meritrocrático na sociedade. Porém, estes desprezam a história de desigualdades raciais e a própria escravidão que serviu de mote para as famílias tradicionais diferenciarem-se no mundo do capitalismo. 

No filme, Django representa uma pessoa negra que conseguiu passar da condição de escravo, de rebaixamento social, para uma condição superior na escala imaginária da divisão social. Para isso, o homem branco e Django usam, em todo o momento, artifícios de legitimação sobre seu poder e conhecimento para justificar o porquê é um homem negro livre, o que é encarado com certa desconfiança pela oligarquia colonial branca. Nessa interlocução, a existência de Django, o livre, numa sociedade conservadora em que tem como mote os princípios colonizadores é uma tentativa de ruptura dessa condição natural dos negros à escravidão. 

De certa forma, o filme pode ser relacionado com a clássica obra Casa-Grande e Senzala de Gilberto Freyre que, no seu resgate histórico, retoma as bases da formação sociocultural brasileira, e nos fornece suporte para apresentar uma noção de como se desenvolveu a sociedade do Brasil, em sua organização econômica e civil. A agricultura conduzida primordialmente pela estabilidade patriarcal da família, a regularidade do trabalho por meio da escravidão e a miscigenação como propulsora na época. O estudo de Freyre esmiúça questões emergentes da história brasileira como seus costumes, suas religiões, seus mitos, seus intercursos sociais e sexuais, sua forma de desenvolvimento, a prática da agricultura e a divisão do trabalho entre os escravos. A obra trata da relação da família patriarcal e o escravo propriamente dito, demonstrando uma situação dada e que não existia forma de resistência ou incursão da realidade em que se apresentava. Em alguns momentos, nesta obra, o autor reproduz falas dos senhores e a concebe como algo que aconteceu pela naturalidade dominante da realidade. É nesse sentido, que se percebe a superioridade da mulher branca, a inferioridade da negra e a preferência sexual pela mulata.


Tanto o filme de Django, quanto a obra de Freyre trazem de forma efervescente a realidade da escravidão, da superioridade racial e das condições espolias e degradantes das relações capitalistas que usam pessoas como forma de apartheid social. Em certo momento do filme, Jango e o homem branco direcionam-se para uma fazenda com objetivo de resgatar a sua esposa negra, escrava de um senhor branco patronal. Com a justificativa de que queriam fazer uma oferta para suas terras foram até a propriedade e solicitaram uma negra que falava alemão para passar a noite, a qual era a esposa de Django. Nesse sentido, as negras também eram usadas como objeto de desejo sexual, aproveitadas como instrumento de cordialidade entre os homens. Mas, nesse caso, foi apenas chamada para informá-la do plano de ambos. A escravidão sexual das mulheres negras era convencionalmente aceita entre todos, até mesmo pelas esposas dos senhores. O uso do corpo das mulheres negras como forma de objeto sexual para as visitas não é mais nada que uma forma de realizar um agrado para que seja bem conduzido um bom processo de negociação. Nesse sentido, todas as relações humanas conduzidas nessa imersão social tinham como objetivo fim a manutenção do poder simbólico e do poder econômico. 

Porém, há, no entanto, outra reflexão sobre o filme que emerge um desagrado que é revelado Will Smith em entrevista ao Cine pop. Meu sentimento e desagrado com a parte final do filme foi o mesmo que teve Smith ao revelar o motivo porque ele desligou-se do projeto para interpretar Django livre, ou seja, a produção cinematográfica teve um viés que realçava a vingança na trama, em detrimento da história de amor. Em minha concepção, tratar o sentimento de vingança em um negro liberto empobreceu o enredo, reforçou no personagem atributos sombrios e negativos em relação a sua condição existencial, colocando-o como um portador de uma condição superioridade vingativa, o que lhe fez afastar-se da sua condição inicial. Parece, neste sentido, que foi comprado pelo poder e, mesmo que tivesse ciência da sua condição em uma sociedade injusta, ele permaneceu vingativo como a sociedade branca, realçando as desigualdades e a força das armas. Dar contornos ao filme sobre um homem que aprende as estratégias de negócio e jogos de poder para resgatar sua mulher, tem uma racionalidade mais humana, o que envolve um enredo sobre a história de amor entre os personagens. Smith, sem dúvida, fala com propriedade sobre sua renúncia ao papel de Django oferecido pelo Tarantino, diretor da obra cinematográfica.

No decorrer do filme, Django como personagem tenta não mostrar sentimentos em favor de sua etnia, porque existe um controle social da classe branca em que o negro é escravo e não há nenhum sentimento de pena, por isso. Django visualmente também não demonstra pena para com os escravos. No entanto, isso não significa que Django despreze seu pertencimento social, mas usa de uma estratégia de sobrevivência, pois o limiar entre a sua liberdade e o retorno à escravidão é algo muito curto, muito perigoso no contexto social em que o filme é exibido. Desse modo, Django sente na pele o sofrimento quando chega a uma fazenda em que sua esposa está sendo punida. O sofrimento de Django é mais visível quando encontra sua esposa numa condição submarginal. O homem branco e Django usam uma estratégia negocial para conseguir comprar sua esposa sem o dono ter ciência do fato. Nesse momento, jogos de relações de poder na sociedade colonial estão imbricados, principalmente, pelo uso de armas. Por isso, toda a trama causa uma situação bipolar entre o medo e a força, o medo e a destreza com as armas. Durante todo o filme, o medo está implicitamente inserido no contexto colonial. O medo da morte e o medo da punição são um dois dos principais motes da dominação social. Os escravos estão na condição de marginalidade pela coação do medo. Nesse sentido, o medo prevalece de forma muito veemente nesta época colonial. 

Partindo do pressuposto que o medo é uma construção social, o comportamento humano estimula o medo em detrimento do poder. O poder das armas, nesse filme, é o principal instrumento de autoritarismo social. Existe, portanto, uma condição de enfrentamento do medo através de um objetivo principal que é o fechamento cordial de um negócio de bens e serviços ou de escravos, as pessoas negras. 

Neste comentário, o argumento central demonstra que a produção cinematográfica reproduz as relações patriarcais de poder das famílias coloniais em um contexto de privação em que os donos dos recursos de produção e suas posses comandavam a política, as pessoas e também os rumos da escravidão. Fica, em certa medida, evidenciado que em segundo plano o filme tenta mostrar além de uma simples produção visual que se desenrola pelo estilo faroeste, mas que convoca o público para um repensar sobre as condições marginais em que a sociedade explora as pessoas negras em detrimento de uma posição social altamente questionada, movida pelos sentimentos mais ignoráveis como a mentira, as relações de ódio, juízo de valor e por luxúrias que somente fazem sentido porque reforçam uma relação de privação do outro, de personificação do poder através do uso de coisas e serviços.

Uma sociedade evoluída que deveria prezar pela igualdade entre as pessoas deveria se portar longe desses resquícios coloniais, porém, no mundo natural contemporâneo parece que as cenas do filme ainda estão muito presentes, apenas, revestidas de formas mais amenas de dominação social, mas que, sem dúvida, tem como base o capital como forma de poder, cultura e acesso a bens e serviços. Apesar de todo o avanço democrático no mundo e no Brasil ainda vivemos sérios casos de desprezo social entre as pessoas, em especial, as negras. Não é por menos que a cor da pele ainda causa receios na rua, nos espaços de comunidades que, tradicionalmente, foram ocupados por brancos. 

De forma ainda mais palpável, a própria universidade tem resquícios coloniais, em certa medida, ainda enfrenta problemas na evolução do sistema de cotas e há quem defenda que os negros precisam se submeter ao mesmo sistema de meritocracia que os demais, porque a cor não pode ser levada em consideração quando colocada em jogo questões de esforço e dedicação para ascensão social. Justificativas como essa reforçam, principalmente, que a sociedade ainda não evoluiu significativamente para a minimização das desigualdades sociais. Em 2013, Renato Santos de Souza, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Extensão Rural (PPGExR) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), escreveu um texto de opinião que teve boa repercussão quando assinalou que, desde seu ingresso, na década de 90, para trabalhar na universidade, nunca tinha ministrado aula para um negro na agronomia e que o sistema de cotas raciais tem dinamizado a instituição proporcionando acesso as minorias. Souza (2014) defende que não quer que a universidade retorne a sua homogenia racial, a universidade dos brancos, que reservava aos negros apenas os espaços residuais e subalternos; aquela universidade não é digna deste nome.

Talvez, não seja essa a discussão central de Django – o livre, mas não se pode negar que no debate contemporâneo os negros ainda tem uma grande estrada a caminhar para conseguir minimizar as agruras de um tempo em que a sociedade os marginalizou de tal forma que sua condição ainda está longe das formas igualitárias e democráticas pregadas na constituição brasileira, em especial. O tempo ainda não resolveu, quiçá, um dia poderá ajudar na construção de uma sociedade mais igual, um mundo de todos, diverso e inclusivo.

Todas essas questões, lançadas de forma rápida e superficial aqui, colaboram para evidenciar que a reflexão sobre o racismo, a liberdade, e a emancipação social tanto na sociedade colonial, quanto na sociedade moderna, ainda carecem de pilares mais sólidos em relação a igualdade de gênero, racial; sendo preciso uma ação forte e continua na minimização das disparidades sociais. Um mundo com a reparação das desigualdades sociais parece exigir, nesse sentido, um intenso e longo processo de construção de significados que busquem romper com esse apartheid social que coloniza nossas mentes no mundo da vida.


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Referências
CINE POP. Will Smith revela porque dispensou ‘Django livre’, de Tarantino. Disponível em: <http://cinepop.com.br/will-smith-revela-porque-dispensou-django-livre-de-tarantino-107809>. Acesso em: 29 jun. 2016.
FREYRE, G. Casa-grande e senzala. 35. ed. Rio de Janeiro, 1995.
SOUZA, R. S. Minha experiência com as cotas raciais. 2014. Disponível em: <http://migre.me/uifIA>. Acesso em 08 jun. 2016.
TARANTINO, Q. Django Livre. [Filme-vídeo]. Produção e direção de Quentin Tarantino. Estados Unidos, 2012. Disponível em: <https://www.netflix.com/search/Django?jbv=70230640&jbp=0&jbr=0>. Acesso em: 06 mai. 2016.